Saturday, March 20, 2010

come back, lenine

Good Bye, Lenin! é um filme que faz pensar.
Apresenta-nos a República Democrática Alemã antes da queda do Muro através dos olhos de dois jovens que, primeiro, vêm o seu pai fugir para o mundo capitalista e, depois, vêm a sua mãe, acérrima defensora da União Soviética, a cair num coma, pouco antes da queda do muro. Com a mãe em coma, vêm o muro cair e uma sociedade outrora socialista a sucumbir sob o poder do capitalismo e do consumismo. (A mãe virá a acordar, oito meses mais tarde, já numa Alemanha totalmente capitalista, e eles farão tudo para esconder da mãe a queda do muro o desaparecimento de tudo aquilo em que ela acreditava.)

Esta transição entre um modelo e outro, observada através dos olhos de dois jovens, simples e imparciais, que queriam apenas uma nação mais livre, dá que pensar.
Se é certo que na RDA e restantes nações dentro da União Soviética o povo não tinha liberdade de se manifestar, de ter ideias diferentes das do Estado Socialista, também é certo que não havia pessoas a passarem fome, que todos tinham um sítio onde viver, que não havia discrepâncias tão gritantes na distribuição das riquezas como as que há hoje em dia.
Quando a União Soviética caiu e o capitalismo conquistou toda a Europa de Leste, a economia desses países, que outrora garantia uma vida digna a todos, em que as pessoas não passavam fome nem estavam sujeitas a ficar sem tecto sob o qual dormir, tornou-se uma selva darwiniana, em que sobrevivem apenas os mais fortes. No mundo capitalista em que vivemos hoje, nada é certo - num dia, podemos ter uma vida estável e, no outro, ao ficar sem trabalho, perder a casa, ficar sem ter sequer o que comer. Existe a exploração do homem pelo homem, existe uma péssima distribuição da riqueza, estando 20% da população do mundo na posse de 80% da riqueza mundial. Um sem número de pessoas morre todas as horas, vítima da fome e de doenças perfeitamente evitáveis, enquanto que, do outro lado do mundo, pessoas recebem dezenas, centenas e milhares de milhares de euros por mês. Por todo o mundo existem milhões de pessoas sem casa, a viver nas ruas e em campos de refugiados, enquanto outros milhões de pessoas são donas de diversas casas, e estas estão vazias a maior parte do ano.
Nas sociedades comunistas da União Soviética as pessoas não passavam fome e sabiam que teriam sempre um sítio onde dormir, mas isso não desculpabiliza o facto de as liberdades individuais não terem sido respeitadas no mundo comunista. Nunca disse isso, aliás, acho absolutamente errado que se atente contra o direito de cada indivíduo de pensar livremente. Os fins nunca, mas nunca, justificam os meios. Acho, no entanto, que devíamos pensar se valeu a pena ganharmos a liberdade de dizermos aquilo que pensamos aos sete ventos, se com isso deixámos de poder ter a certeza se amanhã teremos o que comer, onde dormir, onde viver condignamente.
Em suma, poderemos dizer aquilo que quisermos, mas não saberemos se teremos um amanhã.

9 comments:

Inês said...

Óptimo filme. Tem a qualidade de mostrar que, por trás do regime, existem pessoas.

Quanto à pergunta que fazes, eu diria que é a eterna questão e a que, às vezes, por mais apologista que seja da liberdade, me custa responder. No entanto, a questão que eu coloco é: será que não existia mesmo fome e pobreza na URSS?

Francisco Norega said...

Claro que existia.

A questão é que não havia uma desigualdade tão grande. Se existisse fome, era uma fome generalizada, havia um bocadinho menos de comida para (quase) toda a gente. Na sociedade que temos hoje, quando, por exemplo, há algum problema na economia, há os que continuam a comer como dantes e os que simplesmente deixam de ter o que comer. Acho que isso é extremamente imoral e ilógico, somos todos iguais.

Anonymous said...

Apenas tenho um comentário: vai ler o que (realmente) aconteceu na União Soviética quando tinham um regime comunista.

Anonymous said...

http://www.lepanto.com.br/dados/EstComunis.html

Francisco Norega said...

Ao menos não havia banqueiros a ganhar milhões e milhões de euros por mês, enquanto pessoas dormem na rua e não têm o que comer.

Débora Orrico said...

Bem, Francisco, primeiro: estou estupefacta pela tua tenra idade e a tua grande capacidade crítica e de formares bem a tua opinião (opá, eu sei que é feio julgar as pessoas pela idade, mas eu vejo tantos 'miúdos' completamente podres e ocos com 16 e mais que juro que é razão para me admirar!). Os meus sinceros parabéns!

segundo: o assunto que aqui me trouxe, FREE HUGS, quero ir dá-los está claro! Além que ao dar recebe-se, o que por si só é muito bom. Não faço ideia se é preciso inscrever-me e essas coisas, se tiveres essas informações partilha comigo, ok?

terceiro: não podia deixar de opinar sobre este texto que escreveste (mesmo não tendo visto o filme de que falas, mas fiquei bastante curiosa, é um tema que me interessa). Em relação a isto: "Acho, no entanto, que devíamos pensar se valeu a pena ganharmos a liberdade de dizermos aquilo que pensamos aos sete ventos, se com isso deixámos de poder ter a certeza se amanhã teremos o que comer, onde dormir, onde viver condignamente." - não podia estar mais em desacordo contigo. E, desculpa, mas senti necessidade de o dizer. Então é claro que valeu a pena ganharmos a liberdade de expressão! Uma regime em que as riquezas são distribuidas igualmente por entre todos mas que depois oprime o povo nesse aspecto falha redondamente. Além que as riquezas nunca são distribuidas igualmente, há sempre alguém no poder, na chefia, que tem mais. Isso é completamente utópico a meu ver..

Bem, mais uma vez, grande blog e grandes temas. Adoro debater este tipo de questões, e não vou hesitar em vir cá mais vezes. Parabéns!

Francisco Norega said...

Débora,

Quanto ao primeiro ponto, já estou habituado xD Acho que o pessoal dá demasiada importância à idade e, para ser sincero, nos dias de hoje acho que é uma das coisas que menos importa. Mas avançado, obrigado pelos elogios :)

Quanto ao terceiro ponto, entendeste mal. Eu não disse que não tinha valido a pena ganharmos a liberdade, se com isso perdemos uma sociedade mais justa e igualitária, disse que devíamos reflectir sobre essa questão. Não pretendia dar nenhuma resposta definitiva, mas deixar essa questão em aberto, até porque é algo muito complexo, acho que nenhuma das possíveis respostas é assim tão simples.

"Além que as riquezas nunca são distribuidas igualmente, há sempre alguém no poder, na chefia, que tem mais."
Mas isso era um problema do regime, um problema que tinha de ser resolvido. Mas lá, ao menos, tinhas, na teoria, uma igualdade entre toda a gente, ainda que na prática existisse um pequeno grupo de pessoas privilegiadas. No mundo capitalista nem sequer tens uma igualdade teórica, pois igualdade é algo incompatível com capitalismo e darwinismo económico.

Fico muito contente que tenhas gostado do blog :) Nem sabes o prazer que me deu ler essas palavras :)
Mais uma vez, obrigado.

Débora Orrico said...

O problema desse regime é não passar da teoria, é utópico.. e não acredito que algum dia esse sistema resulte. Mas não é só esse, são todos.. Têm todos falhas, não há nenhum que (depois de passar à prática) seja perfeito. E porquê? A meu ver é porque o ser humano é falível, logo nunca vamos ter um regime que funcione a 100%, que deixe toda a gente satisfeita.. Por isso é que existe uma democracia, em que a maioria decide. E vão sempre haver partes lesadas, vai sempre haver uma descrepância em relação à distribuição de riqueza e esse tipo de coisas.

E sim, Chaplin era um grande cineasta, compositor, etc., o homem era multifacetado e fascinava em todas as áreas em que trabalhava.

Francisco Norega said...

Aaah, eu acredito que é possível passar da teoria à prática. É só preciso a pessoa certa :P