Sunday, December 5, 2010

O Caminho dos Estudantes

Foi publicado no Esquerda.net um excelente artigo da autoria de José Biern Boyd Perfeito, estudante na Grã-Bretanha. Um texto incontornável para quem quer perceber o que realmente se passa no Reino Unido, e porquê.
http://www.esquerda.net/artigo/o-caminho-dos-estudantes-ingleses-e-luta


Permitam-me, então, que cite algumas passagens do mesmo:

«O aumento da duração dos créditos, ou seja, mais tempo a pagar a educação e a completa negação de uma educação universal e gratuita, parecem não incomodar a direita conservadora talvez pelo facto de sempre terem Eton e as Grammars Schools onde pode pôr os seus filhos a estudar sem apoio do estado, porque têm dinheiro. A educação volta a ser um privilégio de quem tem dinheiro.»

Aqui, o autor vai direitinho ao cerne da questão: a gratuitidade. Caso ainda não nos tenhamos apercebido, esta está a acabar (nuns casos) e a tornar-se cada vez mais distante (noutros).



«Manchester, Liverpool, Bristol, Cardiff, Edimburgo, Glasgow, Newport, York, Newcastle, Lewisham, Preston, entre muitas outras, são as cidades universitárias onde protestos têm eclodido com regularidade. Em Preston, trabalhadores de uma fábrica de energia, fizeram uma concentração em apoio dos protestos dos estudantes. Em resposta a um jornalista da BBC sobre a razão do apoio aos estudantes, um dos trabalhadores respondeu, “somos os pais deles”.»

Este parágrafo parece-me extremamente importante, pois abarca a questão da união. Cada vez mais, as várias classes (se é que lhes podemos dar esse nome) - estudantes, trabalhadores, desempregados - se unem para fazer face a políticas que, directa ou indirectamente, acabam sempre por afectar todas elas. Isto vem acontecendo em França, em Inglaterra, em Itália, entre outros lugares. Em Portugal, no entanto, parece haver uma luta constante de certos sectores da esquerda para manter cada luta no seu lugar, para evitar a união. Porquê? Não sei, mas espero sinceramente que as pessoas percebam realmente os problemas que enfrentamos e enfrentaremos cada vez mais no futuro e se UNAM. É urgente que isso aconteça.



O texto termina de uma maneira soberba, com José Biern Boyd Perfeito a desafiar «o povo Português, os trabalhadores, os demais cidadãos a darem esta clara mensagem aos senhores do dinheiro.

“Vocês trouxeram as dificuldades para a nossa vida, agora nós vamos levar as dificuldades para a vossa.”

Se isso significa ir para as ruas, protestar , não é por uma razão vã e sem significado e demorando o tempo que demorar. Estamos já há um mês e meio nesta luta e não se vêem sinais de cansaço.



Há muito que entendemos que é a nossa vida que defendemos e essa não é uma razão vã.»



Resta saber quando nós, portugueses, vamos perceber isso.

5 comments:

Gonçalo Ferreira said...

Por acaso, eu concordo que os estudos não sejam totalmente gratuitos. Tenho mais pena da maioria dos americanos, que pagam propinas de 20.000 doláres e têm de trabalhar para as pagar. Cá, se a educação fosse de graça então muita gente se daria ao luxo de andar a chumbar de ano após ano, o que não acontece por se ter de pagar propinas e etc. Ainda assim há aqueles com não sei quantas matrículas que não fazem nada pela vida e ainda reclamam por terem de pagar propinas... Por isso, não acho que devesse ser gratuita apesar dos muitos que gostam de estudar e que para esses seja difícil o pagamento da educação.
Mas é só outro ponto de vista menos extremista. :)

Francisco Norega said...

sim, essa perspectiva é válida. mas... e aqueles que querem estudar e vão deixar de o poder fazer?

Gonçalo Ferreira said...

Eu acho que isso não acontece, nem vai acontecer. As pessoas é que agora metem na cabeça que o corte das bolsas é um escândalo e que os "coitadinhos" (que na verdade não o são que eu já explico a seguir) não vão conseguir pagar as propinas e alojamento + alimentação. No entanto, esses tais nunca os vejo a poupar um tostão, o que significa que têm dinheiro e mais, vivem numa daquelas famílias em que o pai ou a mãe trabalham e recebem subsídio de desemprego porque os ordenados não são divulgados e como se não bastasse também têm muitas vezes a alimentação paga e outras regalias. Há por aí muitas injustiças deste género e no entanto, muitos deles vivem melhor que eu, que todos os dias faço um esforço para ir poupando dinheiro. No entanto, compreendo que possa haver casos pontuais de alunos que tenham mesmo dificuldades financeiras, mas acredito que isso seja raro.

Jose Ramos Perfeito said...

Ao Goncalo Ferreira.
Meu Caro, li com atencao os seus dois posts acerca, nao do texto do qual eu sou autor, mas acerca do ensino gratuito, o que ainda e mais grave. Porque, Criticar a minha opiniao e uma coisa, no entanto defender a propriedade do ensino e outra. Ha uma coisa que se nota nos dois comentarios. E que o Goncalo, liga directamente o ensino e o direito a educacao, a situacoes de vicios criados pelo sistema vigente, que nem e uma coisa nem outra, ou melhor, que passou a ser um negocio.
Deixe-me explicar-lhe que eu considero que o ensino deve ser gratuito, assim como a saude. A razao e que um dos primeiros condicionantes de divisao e exclusao classista e social e a educacao, porque existe a diferenca entre levar um estojo para lapis Hello Kitty ou um vulgar plastico de feira, sabe?
Em vez de considerar que a maioria dos estudantes sao burloes, mandrioes, como diz nesta frase "Cá, se a educação fosse de graça então muita gente se daria ao luxo de andar a chumbar de ano após ano, o que não acontece por se ter de pagar propinas e etc. Ainda assim há aqueles com não sei quantas matrículas que não fazem nada pela vida e ainda reclamam por terem de pagar propinas..." devia-se exigir era educacao gratuita, mas exigindo responsabilidade e colocando objectivos, retirando a competetividade entre alunos e reforcando as ofertas profissionais, dos cursos tecnicos.
Repare, o problema nao esta na gratuicidade, esta na forma como se organiza o ensino.
E muito sinceramente, os Estados Unidos nao sao, nem nunca foram exemplo para ninguem. Ja agora, sabe qual e a proporcao de estudantes de ensino Universitario em relacao a populacao?
Sim ao ensino Gratuito, o conhecimento e de toda a humanidade e nao de escolhidos.
Obrigado pela publicacao do texto, Francisco.

Francisco Norega said...

Não tens nada que agradecer, ora.
A frequência de qualquer grau de ensino nunca pode ser limitada àqueles que têm posses para isso.