Wednesday, April 14, 2010

Carta à mãe

Mais uma vez, dou preferência ao registo escrito, porque posso dizer tudo de uma vez e há menos probabilidades de me esquecer de alguma coisa.

Queria, antes de mais, deixar claro que não estou a questionar nenhuma das tuas opções. No entanto, não consigo deixar coisas por dizer. Ou melhor, consigo, mas faz-me imensa confusão, por isso vou dizer-te o que acho.


As minhas notas não são boas, não ponho isso em causa. Podiam ser muito melhores, é verdade. No entanto, acho que são compreensíveis, tendo em conta o contexto emocional/psicológico/whatever em que me encontro(ei?). Não me quero estar a vitimizar nem nada do género, mas vi a pessoa que me é mais próxima entrar numa depressão, e não é algo com que é fácil de lidar. E vi muitas outras pessoas de quem gosto, por vários motivos, irem-se abaixo, por várias vezes e por várias razões, o que, infelizmente, me afecta também. E mais, pela primeira vez na minha vida tive uma relação, que como sabes foi uma coisa um pouco... vá, merdosa.

As minhas notas não têm a ver com o facto de eu sair ou não de casa. Aliás, nunca tiveram, pois eu quase não estudo, esteja em casa ou não - tem, sim, a ver com a concentração e atenção com que eu consigo estar nas aulas (que, neste período, não foi muita, não por razões que me agradem minimamente). Não vai ser o facto de eu não sair que me vai fazer tirar melhor notas, mas o facto de eu estar capaz de estar concentrado nas aulas, e nos testes.


Outra coisa - a escola, as notas, não passa tudo de estatísticas, de números, coisas sem importância.
São-nos despejados factos, em cadeia, para que os decoremos, até na filosofia! Na escola, não se aprende a pensar, não se aprende a viver, aprende-se a repetir o que já foi dito, a fazer o que nos é dito para fazer, sem questionar. Ensinam-nos a fazer parte de um grande sistema de pessoas que, como numa fábrica, executam mecanicamente um processo (serão mesmo pessoas, ou estarão a tornar-se máquinas?) a vida inteira, sem tempo nem espaço para si próprias, sem espaço para serem felizes, às ordens de um pequeno grupo de pessoas que dita a ordem das coisas.
Olho para trás e são poucas as coisas ensinadas na escola que consigo apontar como úteis. Ensinaram-nos a fazer contas, a ler e a escrever, deram-nos a conhecer o mundo que nos rodeia - isto sim é útil. A partir do 5º ano, encontro cada vez menos coisas que ache realmente úteis.
Vejamos na disciplina de língua portuguesa - despejam-se conceitos e mais conceitos, catalogando-se as palavras, as funções de cada parte de uma oração, etc, etc, etc e não é ensinado aos alunos a escrever e ler a língua portuguesa, e a falá-la. Depois, chegamos a situações em que, por exemplo, no 9º ano, se pergunta a alunos qual é o tempo da forma verbal "sofreste", quando eles nem sequer sabem que a forma correcta de escrever é "sofreste", e não "sofres-te" como se vê por aí, ou, no 11º ano, é perguntado aos alunos quais são os deícticos espacias de um texto, ou pedido para se identificar um predicativo de complemento directo numa frase, quando estes não conseguem perceber um texto nem, muitas vezes, construir frases correctamente.
Saltamos para a língua inglesa e o que se vê é o mesmo. Asfixiar as pessoas com conceitos como reason, time e contrast connectors, modal, phrasal e prepositional verbs, ano após ano, em vez de fazer por que a língua saia como algo natural, sem precisarmos de pensar que temos de utilizar o time connector x ou y para articular uma frase; apresentar textos sobre os mesmos temas, ano após ano, em vez de colocar as pessoas em contacto com a língua, de modo a torná-la uma coisa natural para cada um.
Passando à área das ciências, vêem-se os professores a despejar na cabeça dos miúdos a constituição e funcionamento das células, a dividir os seres vivos em cinco reinos diferentes, cada um com as suas próprias subdivisões, a ensinar-lhes o que são átomos, como se juntam os átomos para formarem moléculas e iões.
Em História, são despejados factos e mais factos, todos extremamente tendenciosos (todos sabemos que, em guerras e conflitos, ambos os lados têm as suas razões, que ambos consideram certas e nobres, mas na História nós somos sempre os que temos razão, os bons, e os outros os maus - e, curiosamente, também somos sempre, ou quase sempre, nós que ganhamos). Todos os factos apresentados pelos manuais são-nos apresentados como correctos e inquestionáveis, e quem apresentar teorias diferentes das oficiais é dado como maluquinho, ou um daqueles maníacos das teorias da conspiração.
Nas línguas, dão-se conceitos e classificações, em vez de ensinar as pessoas a ler, a escrever e a falar. Nas ciências, são-nos apresentados factos na sua maioria inúteis para a vida de grande parte da população. Em História, mais uma vez, é desprezado o raciocínio próprio e o espírito crítico, e faz-se uma lavagem cerebral às crianças, desde bem pequenas.

Pessoalmente, acho a escola que temos hoje uma inutilidade, uma simples forma de manter a população com uma forma de pensar standartizada, facilmente manipulável. Este ano, que vi a minha carga horária reduzida para metade e que me vi com imenso tempo livre, acho que aprendi imenso - arriscaria mesmo a dizer que aprendi mais do que em muitos dos últimos anos de escola. Aprendi, discutindo sobre os mais diversos temas com imensas pessoas, conhecendo novos pontos de vista sobre muitas coisas, reflectindo, e contactando com diferentes formas de ver as coisas e de estar na vida. Também errei, e com isso também aprendi.

Se queres que eu comece a vir para casa assim que acabam as aulas, aceito. Se é apenas por causa das notas, acho que não é por deixar de sair que vou ter melhores notas. E pronto, não acho que as notas, mesmo assim, justificassem uma coisa dessas - não são tão importantes assim. Mas aceito - quer queira quer não, é assim que as coisas funcionam.


Gosto muito de ti.

13 comments:

Débora Orrico said...

sorvi isto tudo, e concordo contigo, quase integralmente.
gostei mesmo, mesmo. e finalizaste meeesmo bem :)

Leto of the Crows said...

Li e absorvi o que disseste, e posso dizer que não concordei com, pelo menos, metade (pode ser por ainda não serem oito horas). Contudo, o que eu acho, é que para se pensar, é necessário ter-se bases dentro da cabeça. Pegando no exemplo da constituição celular, e nos reinos do Witakker (que por acaso é um sistema que já está desactualizado), as pessoas precisam de saber isso para poderem aprender para lá, para poderem explorar o que está por explorar, ou mesmo para contestarem isso. É preciso saber que hoje em dia se pensa que a célula procariota só tem ribossomas e uma molécula de DNA no seu interior, para amanhã vir alguém e dizer: isso é mentira, estive a investigar e a célula tem mais aquilo e aquilo e aquilo. Ou seja, as bases são sempre importantes. Podem não ser úteis para ti, mas são úteis para os outros. É necessário instrução para se continuar em frente, e a definição de bases é muito relativa - podem ser o que aprendes na escola primária, ou pode ser o que aprendes até saíres da faculdade. E tendo em conta que não existem muito autodidactas, é necessário enfiar a informação pela boca a baixo dos estudantes, por mais desagradável que isso possa ser, nem que seja para eles conhecerem o que poderão vir a conhecer em mais profundidade, caso queiram.

Quanto ao facto de teres boas notas ou não, penso que não é só com isso com que a tua mãe se preocupa, tenho a certeza que dá imenso valor à tua saúde, mais do que alguma vez haverás de dar. No entanto, este já não é um assunto em que me possa meter, porque, no final de contas, não passo de alguém que pensa que sabe pensar e da qual a opinião é só mais uma, entre muitas.

Kath said...

Concordo com o que a Leto disse, e acrescento que isso de ensinar os alunos a ler e a escrever não tem apenas a ver com o sistema. Os professores não vão repetir todos os anos a mesma coisa, ou não deviam, até as criancinhas aprenderem a fazer. Acredito que haja alunos com dificuldades, mas nesse caso que peçam ajuda, ou que fiquem um ano para trás. Não é ensinando o mesmo até toda a gente saber os básicos que se chega a algum lado, além de ser injusto. Não é que não seja ensinado, há é gente que não aprende. (Não digo que não haja maus professores, mas isso não é desculpa para tudo.)

Notas. Se queres aprender mais que as bases e ver para que elas servem convém teres boas notas, para entrares no curso que queres (se queres algum).

Conheço pouco da Ana, mas do que conheço não me parece que ela se esteja a preocupar tanto com as notas como contigo. Contigo, Kiko, como pessoa.

anita said...

Kiko, não posso dizer que não soubesse já o que li. Mas posso (com toda a certeza) concordar com a Leto e a Kaths quanto à importância do teu bem-estar como pessoa (e, só depois, como aluno) para a tua mãe (e para todos os que te rodeiam, aliás!). Não me parece que a preocupação com as notas seja uma preocupação directa, mas uma preocupação com as motivos que lhes estão subjacentes. Ter um grupo de amigos fantástico, sair com eles, experimentar coisas novas, balançar um bocadinho a vida, é óptimo e necessário. Mas (e porque quase tudo tem um "mas"), a moderação e o equilibrio são essenciais... Não te esqueças nunca disso.
Sei que estás a passar uma fase má e estou aqui (mesmo quando te possa parecer que não "vejo"...). E sim, desculpa se contribuo para que as coisas (que raio de palavra) não sejam mais fáceis.

Francisco Norega said...

Débora,
Obrigado :)

Leto,
O problema é que te dão as bases, e mais do que elas, sem qualquer objectivo de te ensinar a pensar, pelo contrário.
Agora pegando na tua referência ao Witakker... Tu própria dizes que está ultrapassado, mas com uma grande parte dos professores, se um aluno se atreve a dizer isso, é mandado calar.
"É preciso saber que hoje em dia se pensa que a célula procariota só tem ribossomas e uma molécula de DNA no seu interior"
É mesmo preciso? Eu não acho. Isso já não se tratam de bases, são pormenores, insignificantes para a vida de grande parte das pessoas.
Para ti, é importante mas, para um rapaz que quer ser padeiro, não. Aliás, assim como tu, na escola, não tiveste uma disciplina a ensinar-te como fazer pão, o padeiro não tem de ter levado com carradas de ciências e matemáticas em cima, só porque sim. Não se não quiser.
"Quanto ao facto de teres boas notas ou não, penso que não é só com isso com que a tua mãe se preocupa, tenho a certeza que dá imenso valor à tua saúde, mais do que alguma vez haverás de dar. No entanto, este já não é um assunto em que me possa meter, porque, no final de contas, não passo de alguém que pensa que sabe pensar e da qual a opinião é só mais uma, entre muitas."
Claro que podes meter. Considero-te minha amiga, tens todo o direito de dar a tua opinião sobre o que quer que esteja relacionado comigo.
Agora, isto tem SÓ a ver com as minhas notas. Quanto à minha saúde, a minha mãe pode ser (e é) muito directa, não precisa de rodeios, até porque eu também sou directo com ela ;)

Catarina,
"Os professores não vão repetir todos os anos a mesma coisa, ou não deviam, até as criancinhas aprenderem a fazer. Acredito que haja alunos com dificuldades, mas nesse caso que peçam ajuda, ou que fiquem um ano para trás."
Claro que não, nem foi o que eu disse. A questão é que não são só algumas pessoas que chegam ao secundário sem saber ler, escrever e falar como deve ser - é a generalidade dos alunos. E se é a generalidade, talvez não seja só problema das pessoas, mas do Sistema.
"Não é ensinando o mesmo até toda a gente saber os básicos que se chega a algum lado, além de ser injusto."
Não disse isso. Mas é o modelo do ensino que temos que está mal - quem já sabe, passa a frente; quem não sabe, fica a aprender (não falo como no modelo actual, em que se chumba ou passa de ano, mas de algo mais específico, relativo a cada disciplina). Ora, se um miúdo do 2º ano já sabe com facilidade multiplicar e dividir, e fazer uma série de outras coisas na matemática, devia avançar para outros assuntos, mas se não está a dar-se bem com a aprendizagem da escrita, deve ser acompanhado de perto, e continuar-se a insistir com ele nesse assunto.
E quem fala de 2º ano, fala de 9º. Um aluno que não se dê bem com a matemática devia ter a possibilidade de continuar a insistir nela, mas poder avançar noutras disciplinas, como o inglês, em que pode ter muita facilidade e não tem lógica continuar com a mesma matéria durante dois (ou mais) anos.

anita,
Não ganho esse bem-estar enquanto pessoa estando sempre enfiado em casa, acho que é fácil perceber isso, e também ela o fez.
"Não me parece que a preocupação com as notas seja uma preocupação directa, mas uma preocupação com as motivos que lhes estão subjacentes."
Ela sabe demonstrar a preocupação dela com os tais motivos. Penso que isto foi mesmo algo desencadeado pelas notas.

"Ter um grupo de amigos fantástico, sair com eles, experimentar coisas novas, balançar um bocadinho a vida, é óptimo e necessário. Mas (e porque quase tudo tem um "mas"), a moderação e o equilibrio são essenciais... Não te esqueças nunca disso."
E eu sei isso muito bem. Uma vez por outra, cago no equilíbrio, mas acho que no geral tenho-me portado bem *.*
Obrigado por estares aqui para me apoiar :) E que raio de ideia, anita, contribuis o quê? Às vezes merecias uma vergalhada :P

Leto of the Crows said...

Kiko, para ser padeiro não é preciso ir à escola, sequer, logo esse não é dos melhores exemplos. No entanto, por vezes ser padeiro não é um "querer" é uma necessidade, porque a pessoa não tem dinheiro para seguir o seu sonho, ou pode não ter "notas". Sim, porque para se entrar numa faculdade pública é preciso ter-se médias, a não ser que a pessoa tenha dinheiro para frequentar uma faculdade privada. Eu admiro a cultura, e admiro ainda mais aquelas pessoas que sabem um pouco de tudo (o que não é o meu caso), logo, dizeres que aquilo não presta, que aquilo não devia ser ensinado, etc. etc. etc. acho que não está correcto. Eu tenho olhos na cara, e não é dos pobres alunos que são obrigados a aprenderem o que não gostam de quem tenho pena, e dos professores que têm de ensinar os vândalos que lhes dão para a mão, os mal educados, pouco civilizados... enfim. No entanto, também é bom saber que nem todos são assim.

Eu admiro muito o teu sentido crítico, mas sei ver que uma pessoa, só com a escola primária, não vai a lado nenhum. Sem a escola básica não pode saber do que gosta. E quanto ao ensino secundário... bem, têm 4 ou 5 áreas por onde escolher, não são todos obrigados a ir para ciências, ou para artes, ou para letras... mas claro que uma pessoa que vá para ciências, tem que aturar com a química e com a física, tem que aturar com a biologia e com a geologia... Eu estou no curso de Biologia, e quando andei no secundário, detestei química, MAS, a química é muito importante em Biologia, assim como a Matemática (e raios as partam xD)

Leto of the Crows said...

(Continuação... que tive de ir tomar o pequeno almoço xD)

Bem, voltando ao exemplo do padeiro e profissões afins. Há mais para lá do secundário, existem cursos profissionais que a pessoa pode seguir, ou mesmo cursos tecnológicos. As escolhas não são assim tão restritas.

No caso das bases, por vezes é difícil orientar a coisa. Muitos alunos chegam onde chegam, porque copiam pelos colegas, ou por cábulas, etc. etc. Conheço exemplos disso, até na faculdade. E deves perceber que não podem prestar provas orais, ou coisas do género, a toda a gente, até porque pessoas com essas tais bases também poderiam sair prejudicadas caso fosse tudo varrido a provas orais (tipo eu, que devia ter um enfarte, só de saber que faria uma prova oral xD)

Concluindo, fazes críticas a este ensino, mas de que forma o poderias melhorar? Tens ideias?

P.S.: E quanto aos reinos do Wittaker e da Margulis... quando digo desactualizado, não quero dizer errado. Por isso não faz mal nenhum aos meninos e meninas de biologia aprenderam. O único problema é que mete as Bactérias em conjunto com as Archeas e blablabla, não estás interessado nos pormenores xD

Kath said...

Se resultou com alunos em anos anteriores, por que não resulta com os de agora? Não digo que seja o modo perfeito de ensinar, mas diabos, a culpa não pode ser toda do sistema. Os alunos não são santos nenhuns. Sei que disseste que não é "só" das pessoas, mas acho que o teu só é um pouco mais fechado que o meu. O que acontece, e generalizo, é que há gente que não sabe o que quer fazer, e algumas que sabem não se interessam por aquilo que não diz respeito aos seus objectivos do futuro. Eu acho, como a Leto, que se deve saber de tudo um pouco apesar de não estar incluída nisso. E uma das coisas boas do básico é isso.

E já pensaste na confusão que seria os alunos progredirem numas coisas e deixarem outras para trás? Imagina que um aluno fazia todos os níveis de matemática mas que não fazia nenhum de português, no final do ensino básico. Que acontecia? Tinha de ficar para trás de qualquer das maneiras, porque não faria sentido avançar para o secundário dessa forma. E o mesmo do secundário para a Universidade. Não se pode fazer só o que se quer.

Anonymous said...

gostei imenso do texto.
por um lado, senti que poderia ter sido eu a escrever isto, senti mesmo. o título deixou-me curiosa, mais ainda por a minha mãe ter escrito uma "carta à filha" hoje de manhã, depois de uma enorme discussão via telemóvel, com um pedido de desculpas. mais curioso ainda por não ter percebido a carta e por parecer estar escrito em código. a dificuldade da minha mãe em se expressar, e a sua inocente falta de vocabulário revela sem querer que não teve a oportunidade de ir até ao secundário, e até antes de acabar o básico.

sim, concordo que as aulas têm o seu lado inutil. um exemplo são as minhas aulas de inglês, em que uma senhora sempre em pé dita a matéria. matéria que me vai ajudar imenso, se tiver que viajar para o estrangeiro e não conseguir-me "desmerdar-me"!? posso dizer, que, foi no 5º ano que aprendi o que sei, com as bandas desenhadas e diálogos que repetiamos, e nos ensinavam a pedir para usar o telefone e a perguntar "quanto custa aquela t-shirt?". o resto parece-me repetido todos os anos, e sinceramente ainda não percebi para o que serve. talvez, por ter uma stora que para além de estar sempre em pé, não faz muito mais.
não estou em casae estou a ficar sem bateria, se me lembrar, passo cá noutro dia. de qualquer maneira, belo texto!

João Pereira said...

"we are plastic soldiers in a miniature war",
Antes de tudo, adorei este texto, quase bati palmas por concordar tanto.
De facto, dá ideia que as escolas são fábricas, uma´espécie de linha de montagem onde cada sala tem a sua função, enfiar tretas para dentro das cabeças dos alunos.
Sim, até a filosofia é decorada! Agora pouco ou nada se aprende na escola.
No meu curso, em artes, chegamos ao ponto de ter de copiar obras de grandes artistas. não é ridiculo?

caroline knows said...

só podia vir de ti, isto :) já aqui passei umas quantas vezes e nunca o comentei.
ora, achei a ideia de escreveres este texto brilhante & espero que a tua mãe o tenha lido e absorvido as principais ideias. concordo contigo relativamente à forma como o ensino está estruturado. no entanto, acho que é importante manter em mente determinados pontos: não acho que seja inútil. parte do que é leccionado pode não ter uma aplicação prática obvia, mas acredito que o conhecimento não ocupa lugar, e saber determinadas coisas não faz mal a ninguém (note-se também a possível aplicação que esses conhecimentos podem ter, por exemplo, na área científica, caso o alunos queira seguir uma área específica aqui). na minha opinião, a disciplina de filosofia não deveria ser assim chamada, mas "história da filosofia". é, também, de certa forma frustrante ver a incapacidade de formular uma escrita coerente & minimamente aceitável da parte de alunos do secundário (& ensino mais avançado inclusivé). no entanto, não me parece que seja este o ponto fulcral da questão.
conheci a tua mãe naquele almoço vegetariano & pouco dialogámos, mas pareceu-me bastante boa pessoa. com base no que me dizes, acho que tudo isto é minimamente razoável. repara: quantas vezes já te falei sobre o teu potencial? tu és tão grande (& não estou a falar de tamanho!), digo, és uma pessoa fantástica! porque não aliar isso a alguma estabilidade? conheço-te bem & sei que és pouco apologista da sociedade actual e compreendo (garanto-te que compreendo) o teu ponto de vista. no entanto, há que ver o da tua mãe também. não acho, de forma alguma, que as saídas tenham a ver com as notas e considero-te alguém totalmente capaz de fazer um uso correcto do tempo (isso nem se discute), mas compreendo a reacção dela em relação a ti, como pessoa. estamos numa idade ingrata, e é normal que os nossos pais se preocupem com isso. (e daqui, o que tenho a dizer sobre ti, já tu o sabes.) tenta, também tu, ceder um pouco & aplica-te (eu sei que tens capacidades mais do que suficientes para atingires bons valores a tudo sem te "matares"). e quando achares que a tua mãe te trata de forma menos correcta, lembra-te da minha, por exemplo, que me ralha por eu ter as mãos com restos de tinta por ter estado a pintar, porque pintar é "miserável" e "nunca me vai levar a lado nenhum" (aplicando isto também ao meu gosto pela música, cinema, fotografia, literatura, wtv) - e sabes bem as vezes que saio de casa, as coisas que ouço (etc.etc.)
por mim trocamos de pais uns dias, o que achas? sabes as notas que tenho & sabes o que me dizem. conheces a minha atitude & sabes como reagem em relação a ela. achas que aguentavas, aqui? não aguentavas. e não é com textos bonitos que eu posso dizer isto aos meus pais, como tu podes dizer à tua mãe (já que ao menos a tua ouve o que tens a dizer).

& não quero deixar espaço para dúvidas no seguinte:
tu és uma grande pessoa. tens um coração do tamanho do mundo! mereces tudo o que de melhor possas ter.
então, estuda um bocadinho (eu sei, eu sei, ninguém gosta :p) e faz lá o favor (mais a ti do que à tua mãe!) & sê feliz nesse equilíbrio.
adoro-te, francisco, e quero-te bem (desculpa se nem sempre o transmito da melhor forma).

Débora Orrico said...

Depois de ler esta discussão interessantíssima, tinha mesmo que vir pôr a colher.

Há coisas que se aprende pela experiência, e são essas que nos preenchem, que nos fazem humanos. E não aquelas que nos despejam na escola.

Aprendo mais ao observar a natureza, a conversar com um amigo, a ver conviver com pessoas de culturas e ideias diferentes, a sentir a erva debaixo dos pés, a sentir amor pelos que me rodeiam, aprendo mais ao dar uma mão para ajudar alguém, aprendo com o sorriso dos outros, aprendo com um abraço, aprendo com gargalhadas, aprendo quando erro, aprendo com as sensações, aprendo quando dou atenção às coisas mais simples da vida. Ás vezes fazia-nos bem voltar ao modo mais primitivo, mais 'selvagem', menos formatado do ser humano. Destas coisas a escola não nos ensina, destas coisas não se aprendem na escola, vivem-se. E são essas que nos fazem mais pessoas, mais humanos, a meu ver mais felizes e completos, e até mais sábios.

Sou a favor da aprendizagem sim, sou a favor da existência de escolas e de um sistema educativo, claro. Mas será que este é o sistema ideal? Tal como disseste "São-nos despejados factos, em cadeia, para que os decoremos, até na filosofia! Na escola, não se aprende a pensar, não se aprende a viver, aprende-se a repetir o que já foi dito, a fazer o que nos é dito para fazer, sem questionar. Ensinam-nos a fazer parte de um grande sistema de pessoas que, como numa fábrica, executam mecanicamente um processo (serão mesmo pessoas, ou estarão a tornar-se máquinas?) a vida inteira, sem tempo nem espaço para si próprias, sem espaço para serem felizes, às ordens de um pequeno grupo de pessoas que dita a ordem das coisas." Será que isto é realmente aprender? Decorar uma data de conceitos que muitas vezes não percebemos e despejá-los nos testes? Isto é aprender o quê, a memorizar? Até na filosofia, que deveria ser uma disciplina em que poderiamos dar asas a expressar o que pensamos, que poderíamos aprender a ser críticos e a criar uma visão do mundo que nos rodeia pela nossa própria perspectiva, até nesta disciplina tentam formatar a nossa maneira de pensar. Tal como dizes, não nos ensinam a pensar e sim a repetir o que nos é dito sem questionar. E quando questionamos alguns professores vêm-nos logo como rebeldes ou destabilizadores, mandam-nos calar. Limitam-nos, como se nos fechassem numa caixa. O quê que as escolas estão a tentar fazer de nós? Tentam fabricar-nos em série, dentro de parâmetros considerados normais. Estão a preparar-nos para nos conformarmos sem abrir a boca. Isto às vezes assusta-me um bocado.

(continua ...)

Débora Orrico said...

(continuação...)

É preciso educar com vista a formar adultos capacitados a pensar por si próprios, a formar ideias, e para isso a escrita e a leitura e aprender línguas diferentes são instrumentos importantes, são ferramentas de expressão e comunicação. A maneira como as aprendemos é que não é a melhor.

Em português, no 12º ano, é nos dado a conhecer um grande poeta português, Fernando Pessoa, mas quando analisamos os poemas dele e dos seus heterónimos é nos ensinado como analisar cada aspecto, cada palavra da sua escrita. Não nos pedem a nossa visão da escrita dele, o que nos faz sentir ou pensar, dizem-nos simplesmente 'esta frase significa isto, isto e isto', e é o que temos que pôr no exame, se eu puser a minha visão do que li provavelmente cortam-me grande parte da cotação da pergunta. Não é analisada a nossa capacidade crítica e de pensar por nós próprios (e isto é que nos faz crescer e aprender!) mas a nossa capacidade de decorar o que demos nas aulas, encaixar conceitos e interpretações que nos são dadas.

Mas como em tudo, não há verdades absolutas, e cada um tem a sua maneira de ver, cada um tem a sua verdade. Esta é a minha.

Para finalizar deixo isto:

"Deito-me ao comprido na erva.
E esqueço do quanto me ensinaram.
O que me ensinaram nunca me deu mais calor nem mais frio,
O que me disseram que havia nunca me alterou a forma de uma coisa.
O que me aprenderam a ver nunca tocou nos meus olhos.
O que me apontaram nunca estava ali: estava ali só o que ali estava."

Alberto Caeiro, in "Fragmentos"
Heterónimo de Fernando Pessoa