Monday, July 27, 2009

Novo Fantástico em Português

É bom saber que as minhas palavras de anteontem não foram em vão. Como houve várias pessoas que mostraram interesse em ler alguns exemplos da tal "boa escrita" de que eu falo, vou deixar aqui alguns excertos e links.
Atenção que eu não digo que todos os títulos que apresentei estão prontos a publicar. Na minha opinião (que vale o que vale) todos são bons - o que não implica que alguns não precisem de uma revisão, ou de uma reformulação de algumas partes -, e alguns são de uma originalidade que deveria fazer inveja a muitos autores que andam para aí. Mas não são perfeitos, até porque a maioria é escrito por pessoas ainda jovens (alguns mesmo por menores de idade, a que não se pode exigir um nível de escrita que se exigirá a alguém que escreve há duas, três décadas).

O texto da Carina R. Portugal, O Acorde das Almas, pode ser lido aqui. Na minha opinião, é um excelente conto, passível de figurar na Bang! ou em outra revista de Fantástico.

Do Mário de Seabra Coelho (também conhecido por estas bandas por Yangsmoth), apontei o texto Lágrimas Divinas, que foi escrito quando ele tinha 15 anos (há três anos, sensivelmente), pois não tenho acompanhado os últimos textos dele (que, acredito, sejam ainda melhores).
Tem algumas partes que não passariam como estão para publicação, mas penso que no geral é um texto que, se não pode ser publicado (que penso que pode), mostra um grande potencial de quem o escreveu.
Aqui fica um excerto (com a devida permissão):
Transportada pelo teimoso vento, a pétala ultrapassou as imponentes muralhas brancas da cidade de Jazlul, descendo e razando um telhado. Voltou a virar de direcção ao aproximar-se de outro edifício, e desceu por um beco escuro. Através de sombras, brados e gemidos, a pétala viajou. Libertou-se das trevas e partiu para o centro da cidade. Esvoaçou através da praça, esquivando-se de membros e rostos exaltados. Penetrou por uma janela e volteou em direcção à única pessoa presente naquele compartimento. Deslizando suavemente, acariciou a face da rapariga com o seu toque cândido, e partiu por outra janela, em direcção ao céu.
A jovem levou os seus dedos à bochecha de pele nivea e franziu o sobrolho. Uma voz rouca chamou por ela: — Alisa, vem!
Ela ergueu-se da cadeira onde estava sentada, alisou o vestido, e partiu em direcção ao chamamento.
— Alisa, ajuda-me aqui com esta panela... Os meus ossos estão cada vez mais fracos. — Pediu o seu pai, cujo rosto barbudo estava contorcido numa careta de dor enquanto levantava uma panela. A filha ajudou-o, e os dois transportaram o objecto para cima da mesa. O homem observou o fumegante conteúdo com ar satisfeito.
— Parece delicioso... — Afirmou Alisa, curvando-se para olhar a sopa.
O seu pai ergueu o olhar para a rapariga, e o seu bigode obstruiu parte do sorriso bondoso. Acariciou-lhe os cabelos cor-de-mel. — És a face esculpida da tua mãe, filha. Que Deus proteja a sua memória.
Tristeza patenteou a sua presença nos olhos verdes da rapariga. Que mesmo assim respondeu ao sorriso com um semelhante.
— Vamos comer, se não arrefece. — O pai foi buscar dois pratos de barro e poisou-os na mesa. Com uma colher de pau, encheu os pratos de sopa espessa. Depois de uma curta prece, começaram a comer em silêncio.
Foram interrompidos minutos depois por duas batidas secas na porta. O pai demonstrou intenção de se levantar, mas foi impedido por um toque gentil da filha, que foi abrir a porta.
Um rosto ligeiramente encoberto por um capuz branco sorriu-lhe. — Boa-noite, jovem. Venho à porta deste gentil lar para pedir guarida da chuva, durante esta fria noite. — Como que para o apoiar, a chuva aumentou de intensidade.
— Entre, entre! — Disse a voz do pai de Alisa, que ouvira o pedido. — Venha partilhar uma refeição quente connosco.
Alisa deixou o homem alto entrar, e os dois caminharam em direcção à mesa. A jovem sentou-se, e o homem fez o mesmo depois de pedir licença.
— Kuro Sellan. — Apresentou-se o pai de Alisa, estendendo uma mão distorcida por reumatismo.
— Nostranus. — Respondeu o visitante, aceitando o cumprimento enquanto puxava o capuz para trás, revelando um rosto de meia-idade e calvo, de limpidos olhos negros e testa alta.
— Então diga-me... É de fora? Tempos negros para um viajante. — Comentou Kuro de maneira conversadora.
— De facto, tempos mais negros do que aparentam, senhor Sellan. — Longos dedos entrelaçaram-se debaixo do queixo. — O Homem enfrentou o Céu, e foi auxiliado pela Mãe Terra. Mas o próximo confronto terá um terceiro participante... O Mal Encarnado, o Senhor das Chamas.
O sobrolho de Kuro ergueu-se.
— Divagações de um louco, meu amigo. — Esclareceu Nostranus. — Céu, Homem e Fogo. Diga-me, Kuro, o que é um homem senão uma tela pintada pelo tempo? — Levou outra colher de sopa à boca e sorriu perante os olhares de incompreensão. — Infelizmente, existem duas influências exteriores. O Mal e o Bem. Os lados opostos... — Enquanto falava, tirou uma moeda do bolso e atirou-a ao ar. — Da mesma moeda... — A moeda caiu, e para surpresa de pai e filha, manteve-se equilibrada pela parte lateral. — Amor e ódio, riso e choro... Os opostos necessitam-se, Kuro. Atraem-se como melgas para o fogo. — Levou as mãos à frente do rosto e esticou os indicadores. Como que por magia, um cubo de gelo apareceu na ponta do indicador esquerdo, e uma chama avivou-se no indicador direito. — Lentamente, aproximar-se-ão... — Quando os dedos se tocaram, o fogo extinguiu-se e o gelo derreteu, escorrendo em água por entre as mãos do homem. — E serão uno. Por fim, libertos do Mal e Bem. Do Céu e do Fogo.
Alisa e Kuro abriram as surpresas bocas.
Nostranus recostou-se na cadeira, e o seu sorriso morreu ao fitar pai e filha. — Os homens são feitos de sonhos e memórias. Lembrem-se disso. — Suspirou. — E aproveitem o tempo que vos resta juntos. — Naquele momento, pareceu envelhecer vinte anos.

Milhões de vozes etéreas rugiam nas margens da longa estrada de pedra calcetada que aguardava diante de Aazaad. Homens e mulheres de variadas raças berravam uma cacofonia de pesadelo. Demónios voavam por cima do jovem, soltando risadas sarcásticas, e anjos abanavam as belas cabeças em desagrado.

No fim da estrada, um trono de ouro, rodeado de imponentes colunas. Sentado no trono, a mais estranha criatura que Aazaad já vira, repousava. O seu eterno olhar poisado em si.
Trémulo e assustado, Aazaad começou a caminhar, olhando em frente e tentando ignorar os milhões de inimigos que o ameaçavam, insultavam, e provocavam, mas que no entanto pareciam ter receio de erguer uma mão contra si.
Cada vez mais próximo... Conseguia sentir o peso da observação da criatura sentada no trono.
Mais alguns passos... e fascinou-se com a visão do que se sentava no trono.
Era uma criatura bizarra, pois parecia estar constantemente a mudar de forma, cor, género e raça. Ou era uma serpente alada, um homem gordo de pele morena, um homem de barbas brancas e aparência bondosa, um sujeito andrógino, divinamente belo. Um homem de seis braços e terceiro olho entre as sobrancelhas. A única coisa que não parecia mudar, era o olhar nobre que vergava Aazaad. Encolhendo-o... Parecendo sondar-lhe a alma.
Encontrava-se agora a metros do trono...
— Bem-vindo, Aazaad. — Cumprimentou a voz que parecia possuir milhões de tons diferentes. Um coro etéreo em permanente concordância.
— Quem és tu? — Conseguiu Aazaad perguntar.
— Alah, Shiva, Quezacotl, Zeus, Jupiter, Deus. Chama-me o que o teu coração desejar. — Replicou o ser divino.
— Deus... — Murmurou o jovem, incrédulo. Os seus joelhos tremeram.
— Sim... A escolha mais comum. — Concordou.
— O que faço aqui?
Os brados das criaturas que os circundavam pareceram aumentar de volume.
— Tu sabes, Aazaad. Sou Deus, criado pelo homem, e se tu assim desejares, por ele destruido. Por ti destruído. — Declarou Deus, ignorando as cada vez mais barulhentas criaturas. — Tens uma escolha diante de ti. Mata-me, e quebra a barreira que separa o Céu e o Inferno da Terra. Ou poupa-me, e deixa o destino do Homem nas minhas duvidosas mãos.
E finalmente, Aazaad compreendeu a indignação dos gritantes seres.
— Não tens o direito!
— Mereces arder nos confins do Inferno!
— Poupa o nosso Pai! Poupa o Todo-Poderoso!
— Tirano! Assassino!
— Inconsciente! Não o faças!
A escolha era sua.
A mente do jovem fervilhava... Deveria matar Deus, causando assim o caos terreno, mas libertando a humanidade, dando-lhe a possibilidade de forjar o próprio destino? Ou poupá-lo? E deixar o destino da Terra entregue a uma Entidade.
— O destino do Homem, para o Homem. — Escolheu Aazaad, desembainhando a sua espada. Deus dispensou um único olhar à arma antes de voltar a encarar o seu futuro assassino.
Aço penetrou num coração imaterial, e silêncio abateu-se sobre aquela extensão monótona.
— Escolheste então... O Apocalipse. O fim... Ou o início? — Referiu Deus, cuja imagem tremia, como tinta diluindo-se em água.
[Texto completo aqui.]

De Carlos Eduardo, acho muito boa a ideia do N.E.M.(esis), e ainda melhor (muito melhor xD) a o Hedonê. Infelizmente este último está longe de estar pronto, por isso vou deixar apenas um excerto do NEM:
O relógio apitou, meteu a pistola no coldre e fixou o bastão eléctrico no cinto, vestiu o casaco e saiu. Lentamente, tentando não dar nas vistas começou-se a dirigir para o enorme edifício predominante em toda a cidade. Daniel parou no parque, à sua frente estava a torre. Falhara nos seus cálculos, o turno ainda não mudara. Para ocupar o tempo sentou-se no parque e fitou o magnífico memorial ao resto do mundo. A cidade onde vivia era o projecto mais arrojado alguma vez feito pelo homem. A inspiração tinha vindo da experiência de 1991 a 1993 em que oito pesquisadores se tinham isolado numa estufa de 17 000m2 tentando descobrir como funcionava o enorme ecossistema que era a Terra. O intitulado Projecto Biosfera 2. Mas desta vez o objectivo era diferente, consistia em criar uma cidade isolada do resto do mundo em que o homem pudesse viver. As obras concluíram-se com sucesso, a engenharia humana testemunhava um enorme triunfo. Uma cidade, altamente confortável, ecológica e prática fora construída sob várias cúpulas interligadas entre si. Era abastecida por robots que trabalhavam em campos de cultivo anexos que formavam um anel á volta da cidade. Quando concluída a cidade era um exemplo para todos, enormes espaços verdes para o conforto dos habitantes, casas espaçosas e belas, instituições com os melhores equipamentos possíveis de imaginar. Uma pequena sucursal da grande empresa mecenas deste projecto, a Natura ExMachina, ficou encarregue de gerir os serviços da cidade. Quando as primeiras famílias se mudaram para a cidade não houve nenhum erro a apontar, em pouco tempo a cidade preencheu as vagas de população que necessitava.
Como estava acordado, a N.E.M., foi passando gradualmente os organismos da metrópole para privados, desde fábricas a órgãos de soberania.
De repente o inesperado aconteceu. As portas da cidade selaram-se. Em poucos minutos a N.E.M. anunciou o acontecido. Houvera um ataque terrorista de nível apocalíptico. Ao mesmo tempo, em todo o mundo, milhares de obuses explodiram libertando para o ar um novo vírus modificado me laboratório extremamente contagioso. Felizmente a cidade estava longe de qualquer foco populacional e a informação viajou mais depressa que o vírus. De ali em diante a cidade teria de subsistir por si própria.
Embora a vida não fosse tão luxuosa como dantes, era bastante agradável. A cidade prosperara, a Natura ExMachina controlava agora apenas parte do sector de investigação científica e os órgãos de comunicação. Foi criada uma nova Internet referente apenas à cidade, já que o resto dos computadores mundiais carecia de utilizadores. O monumento tinha escrito tudo isto sob a forma de um friso que crescia em espiral em direcção ao céu suportado numa maqueta da cidade que por sua vez repousava sobre uma superfície curva que invocava a terra.
Os guardas de substituição aproximavam-se. Um de cada lado da rua. Daniel pôs-se em acção. Surgiu por detrás de uma deles e com um golpe rápido e seco com o bastão eléctrico deitou-o por terra. Retirou-lhe a identificação que dizia que se encontrava ao serviço da N.E.M. e colocou sobre a sua farda. Tudo correu como previsto. À porta cumprimentou os guardas, e ocupou no edifício o local de vigia. Não esperou muito até a torre mergulhar no completo silêncio, cuidadosamente observou o cenário à sua volta. Havia câmaras, detectores de calor som e movimento, o chão estava repleto de detectores de pressão. Se Daniel pisasse fora do seu local do seu posto de vigia sem ter accionado o alarme, este soaria, denunciando a sua traição.
De repente o corredor encheu-se de fumo. O alarme soou, alguém tentara penetrar nas defesas da torre da Natura ExMachina., numa fracção de segundos todos os guardas, incluindo Daniel, tinham colocado os visores termográficos. A confusão inicial depressa se transformou numa demanda organizada pelo homem que ousara entrar furtivamente na torre.
Um grupo de guardas deu o sinal, tinham localizado o invasor. Tinham-no cercado, Daniel sacou do bastão eléctrico e da pistola dando sinal que mataria se fosse necessário. O primeiro guarda atacou de bastão em punho, a arma vibrou rente à cara de Daniel que se tinha desviado de modo a defender o ataque vindo de trás. Os guardas guardaram as armas, como estavam em circulo qualquer tiro seria bastante propício a acertar nos colegas. Daniel varreu com o bastão uma vasta área acertando em alguns colegas seus imobilizando-os devido á carga eléctrica. De todos os lados choviam ataques. Daniel girava sobre si próprio, saltava, dobrava-se, fazendo os possíveis para não ser atingido. Com o bastão estocou um dos guardas e, usando-o como aríete abriu caminho por entre o cerco que lhe tinham feito. Mal se viu fora do círculo de guardas correu a toda a velocidade para a sala de arquivo. Mal soara o alarme os andares foram todos selados, mas Daniel previra isso ao colocar-se no andar dos arquivos.
A toda a velocidade, perseguido de bastante perto pelos colegas de trabalho, percorreu todo o corredor de encontro à porta da sala dos registos audiovisuais. Sacou da pistola e apontou para quem lhe perseguia.
- Para trás… – Arfou. – Não me obriguem a disparar!
Daniel precisava de ganhar tempo para a máquina que ligara ao painel de abertura da porta conseguisse forçar a entrada. Os guardas que o perseguiam puseram-se em posição de disparar.
- Se dispararem levo-vos comigo! – Avisou abrindo o casaco exibindo a carga de explosivos que acabara de activar.
Seguiu-se um momento de tensão. Por breves segundos tudo ficou calmo, apenas o bater do coração se sobrepunha ao silêncio. Os números corriam na máquina ligada ao painel de abertura da porta. Os guardas puxaram o gatilho, as balas voaram, a porta abriu, Daniel saltou para dentro da sala. Quando caiu do lado de dentro agarrou-se à perna, havia sido atingido de raspão, mas a visão que teve de seguida fê-lo esquecer de tudo.
[Texto completo aqui.]

Sobre Ricardo Fernandes, não me vou alongar. Deixo-vos aqui um excerto do primeiro Tomo d' A Guerra do Oriente:
Sentou-se no murete, com as costas contra uma das colunas. Hábitos velhos de guerreiro não desapareciam de um dia para o outro, pensou, um sorriso florescendo-lhe nos lábios. Ouviu passos incertos na pedra ao seu lado. Olhou em direcção da pequena ponte de pedra. O seu corpo ficou hirto. Atravessando a ponte, vinha a sua Rainha. Sobrevivera à batalha, pensou para si mesmo. A mulher trajava toda de branco, um vestido justo da cintura para cima e largo da cintura para baixo. Na testa usava um pequeno fio de ouro com um pingente azulado de tamanho diminuto. Fio de ouro enrolava-se também em torno da sua esbelta cintura. Arkham encaminhou-se para a mulher que servira.
A Imperatriz mantinha os olhos baixos, enquanto o Sol a iluminava. Chegou a Arkham devagar, ainda duvidando e temendo pela sua vida. Quando o olhou, quando fixou aquele par de orbes azuis e cinzentos, soube que não o devia temer em demasia. Afinal de contas, era Arkham Caligula Andalorium, o maior Strategus que alguma vez vivera. Trazia uma manta branca num dos braços, encostada ao peito. Desembrulhou-a e deu o flanco ao guerreiro.
Um pequeno e enrugado bebé dormia no meio da manta branca. Tinha uma compleição aparentemente frágil, mas Arkham sabia reconhecer os sinais. Teria um tronco forte e braços duros e grossos, se treinasse. As pernas seriam provavelmente esguias e fortes, dando-lhe vantagem de velocidade. Quando se aproximou mais, a criança acordou e abriu os olhos. O par de orbes vermelhos-sangue fitou o par de azuis-acinzentados. Arkham sobressaltou-se ligeiramente, sentindo o formigueiro no corpo. A criança. Claro. O filho da Imperatriz e de Eblis Dammar. A mulher estava ali para implorar pela vida da criança, não para se entregar ao amor de Arkham. Uma sensação animalesca agitou-se dentro de si. Algo primário reagiu ao olhar fixo e concentrado da criança. Não seria uma criança normal. Não sendo filho de Eblis Dammar. Olhou a mulher nos olhos e compadeceu-se.
Arkham Caligula Andalorium, Strategus, veterano de várias campanhas, compadecera-se do sentimento que viu nos olhos da mulher. Já não era a mulher que ele amava. Mas respeitava-a ainda. Tivera coragem. Fora até ele, sabendo que poderia morrer. Entregar também o recém-nascido à morte. Sorriu. Um sorriso frágil e inseguro. Mas aproximou-se da Imperatriz. Não. Da Rainha. Seria sempre a sua Rainha.
- Strategus? – Ouviu a mulher dizer solenemente.
- Sim...? – Respondeu, sem saber que mais dizer.
- Tomai conta do meu filho... Do nosso filho. Promete-me que o treinarás na forma Andalorium. Isto, se me aceitares como tua esposa. – Disse, de novo com aquele olhar doce e inocente.
- O nosso...filho? – Perguntou Arkham confuso.
- Tem o mesmo poder que tu nos seus olhos. Só poderia ser um filho teu para ter tamanho poder no seu seio. Arkham. Casai-vos comigo.
O homem sorriu. Era tradição ser o elemento masculino a pedir o casamento naquele território. Sorriu um pouco mais e abraçou-a. Tomou no seu braço a criança e a manta e abraçou a Rainha com o braço e mão livres. Era um meio-abraço. Um meio-abraço virado para o sol que entretanto subira um pouco no ar. Banhados naquela luz amarelada, cheia de vida e calor. Estavam no centro da sala circular.
- Arkham ?! – Ouviu-se a voz surpresa da mulher.
O Strategus não respondeu.
- Co...Como foi que... – Tentou ela articular.
O corpo tombou para trás, as mãos segurando o local onda a lâmina fina da katar que Arkham tinha escondida no braço, sob a manga larga da camisola, tinha penetrado. A mulher tombou de costas com um baque seco e enjoativo. A lâmina entrara directamente no seu coração, pensou a Rainha. Arkham usara o braço com que segurava o seu filho. Matara-a. Matara-a enquanto embalava o seu querido filho nos seus braços de assassino. Não lhe dera ainda um nome, sequer, pensou, lágrimas rolando verticalmente pelas suas faces, caindo-lhe nas orelhas que começavam já a esfriar. Tentou olhar para cima. O corpo começava já a desobedecer. Moveu os olhos para baixo. Arkham mantinha-se onde estava, segurando com um braço a criança no seu manto e deixando o braço direito pendendo ao lado da cintura. A lâmina da katar do braço esquerdo estava brilhante com o sangue da mulher e empapara o tecido da manta da prole Dammar. Arkham fitou-o uma vez mais. E o pequeno rapaz fitou de volta. De novo o azul contra o vermelho dos orbes. Sorriu à criança. Baixou-se e enfiou o dedo indicador na ferida da Imperatriz, fazendo-a gemer de dor. A ponta do dedo estava coberta de sangue. Passou o dedo pela testa do recém-nascido, deixando uma cruz de sangue na carne.
- Eu te baptizo Sethius Caligula Andalorium. Serás o meu herdeiro. Manter-te-ei longe da escória igual aos teus progenitores.
A mulher gorgolejou no solo. Reunia forças, pensou Arkham.
- Strate.. Stra...Ar...kham. – Murmurou de forma desconcertante. O homem desviou os olhos, mas forçou-se a olhar. Os seus olhos mantinham-se azuis, o que chocou a Rainha. Matara sem que o seu íntimo fosse alterado. Aquilo nunca acontecera. Nunca ...
Os olhos da mulher esbugalharam-se de espanto. O Strategus era um guerreiro pleno, um veterano, capaz de controlar o próprio íntimo. Soltou um gemido.
- Até sempre, Ardana Movinter. – Disse Arkham, virando costas à mulher que falecia. Caminhou de encontro à pesada porta. Abriu-a com a mão livre, continuando a embalar o rapaz que mantinha o olhar fixo na cara do guerreiro. Desapareceu por detrás da madeira, enquanto o último estertor da morte agarrava o corpo de Ardana, antiga Rainha das Ilhas, antiga Imperatriz do Continente. Terminara. Agora sim, a guerra da reconquista terminara. Tinham finalmente despertado os Reis do amanhã.

Gostaria de deixar aqui mais uns excertos, mas por enquanto ainda não recebi respostas dos autores.

Fico à espera de comentários.

42 comments:

Rogério said...

Olá.

Antes de mais, obrigado Francisco, pela diligência do post.

É natural que os meus comentários fluam aos poucos, para permitir uma opinião mais ponderada. E peço já que os tomem como a minha opinião pessoal, que valerá o que vale.

Começando pelo principio, foi uma bela escolha, esta do conto da Carina.

Primeiro pela ambiência, que para este leitor trouxe à memória algumas ilustrações da Victoria Frances. A escrita, palavrosa e de construção frásica ocasionalmente (demasiado)retorcida, por vezes incomodou um pouco a leitura; mas concordo que essas são características tipo de uma literatura mais gótica, e que só a sensibilidade e a experiência ensinam o equilibrio óptimo. Creio que pelo menos a primeira ficou provado que a Carina tem.
Apesar do que apontei, para mim, o ritmo da história foi ganhando uma cadência ominosa, num crescendo, e o fim foi recompensador.
O suspense quanto à "identidade" do violino também me pareceu bem mantido. A estrutura com as frases inseridas também é um toque que me agradou, dá um ritmo e um enquandramento interessantes.

Trouxe-me também à memória um conto do Lovecraft, com um violinista, "The Music of Erich Zann".

Sim, com algumas (poucas) alterações teria aceito o conto na Bang! quando era o editor. O conto é eficaz e denota ter conteúdo.

Mais opiniões em breve...

Um abraço,
Rogério

Francisco Norega said...

Olá Rogério.

Não tens nada que agradecer :) Faço-o pelo género. :)

E fico contente por saber que gostaste do conto da Carina. Pelo que sei chegou a ser submetido à Bang!, mas não recebeu nenhuma resposta. Era destas coisas que falava, não custava (já não falo dos Prémios) responder a este tipo de submissões, nem que fosse apenas para apontar os erros mais crassos e dar uma ou duas sugestões. ;)

Leto of the Crows said...

Agradeço a crítica, Rogério, foi esclarecedora ^^

Rogério said...

O (excerto do) conto do Mário Coelho já não me agradou tanto.

O início é prejudicado por uma técnica cinematográfica que me pareceu mal transporta para o texto (a "viagem" da pétala funciona ao transmitir ambiente e ao levar a narrativa até à personagem feminina; mas depois lança, literalmente, a acção pela janela, voltando a seguir a puxar a atenção do leitor de novo para trás. Isto, com uma quebra de parágrafo pelo meio.)
Pior, o lirismo acaba por sacrificar a consistência da história. Primeiro assistimos à viagem etérea da pétala por meia cidade e, logo a seguir, ficamos a saber que até estava a chover a cântaros. Nessas condições, duvido que a pétala fosse longe. A mim deu-me a ideia que o autor tinha mudado de ideias quanto ao cenário enquanto escrevia de um parágrafo para outro...

Pareceu-me haver algum excesso descritivo. Por exemplo, ter no mesmo parágrafo o pai da jovem a pedir ajuda com a panela seguido de uma descrição de que ele leva uma panela parece-me redundante.
Expressões como "fumegante conteúdo", "abriram as surpresas bocas" e "duvidosas mãos", espalhadas pelo texto, criaram-me algum problema. Questão de estilo, talvez, mas mesmo assim...

O discurso do visitante é brusco e algo desinteressante. Não faz nada por criar uma simpatia ou antipatia no leitor. Apenas enfado. E no segundo excerto, Deus, descrito como uma criatura invulgar, tem um discurso que não larga o banal.

Sei que a análise se está a limitar aos excertos, lerei o texto integral assim que possivel, mas até agora tenho-os achado pouco imaginativos. E introduzir personagens pela acção parece-me mais producente que através de longas tiradas sacadas um pouco do bolso...

Luís R. said...

Obrigado pelos excertos, Francisco. Ainda não li o conto da Carina R. Portugal, mas em relação aos textos citados no post, e para não dizerem que só sei deitar abaixo sem explicar porquê ou apresentar soluções, deixo um ou dois comentários na medida do pouco tempo que tenho disponível.

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Começando pelo primeiro parágrafo do Mário de Seabra Coelho: "Transportada pelo teimoso vento, a pétala ultrapassou as imponentes muralhas brancas da cidade de Jazlul, descendo e razando um telhado. Voltou a virar de direcção ao aproximar-se de outro edifício, e desceu por um beco escuro. Através de sombras, brados e gemidos, a pétala viajou. Libertou-se das trevas e partiu para o centro da cidade. Esvoaçou através da praça, esquivando-se de membros e rostos exaltados. Penetrou por uma janela e volteou em direcção à única pessoa presente naquele compartimento. Deslizando suavemente, acariciou a face da rapariga com o seu toque cândido, e partiu por outra janela, em direcção ao céu."

Um dos maiores problemas que encontro em textos de jovens escritores (e não só) é o da adjectivação indiscriminada, algo que se torna macerante ao fim de pouco tempo, e que empastela a narrativa com pormenores muitas vezes desnecessários, para não falar de que carrega, conforme a escolha de palavras, uma pomposidade nem sempre apropriada. Adjectivos e advérbios constituem palavras "passivas", que abrandam o ritmo da narrativa e a tornam mais morosa e introspectiva. O contraste são os substantivos e os verbos, que dinamizam a história.

Porque é que o vento é "teimoso"? Não sei. Importa saber? Se calhar não.

Porque é que os membros e os rostos na praça são "exaltados"? Não sei. Importa saber? Talvez, mas debalde procuro explicação.

Para quê dizer que a única pessoa naquele compartimento está "presente"? Poderia ela, estando no compartimento, estar ausente? Se calhar não.

Para quê dizer que a pétala desliza "suavemente"? Pode alguma coisa deslizar de forma áspera? Se calhar não.

And so on, und zu weiter . . . Atenção ainda à escolha de palavras: "Voltou a virar de direcção", por exemplo, é confuso e cacofónico, e choca com a tentativa de puxar a dicção para o lírico. E com tudo isto a pétala não esvoaça delicadamente pelo parágrafo, e o leitor não fica com a sensação de leveza que devia, porque o texto está atravancado de pormenores desnecessários e frases menos cuidadas. Mas comecem a desbastar e constatarão que o que perde em descrições "bunitas", ganha em desenvoltura e interesse.

Luís R. said...

Passando ao segundo excerto, retirado de um texto que por acaso já tinha lido: "O relógio apitou, meteu a pistola no coldre e fixou o bastão eléctrico no cinto, vestiu o casaco e saiu."

Diz-nos o Francisco que o Carlos Eduardo é uma verdadeira cornucópia de ideias, que o seu "Hedonê" é digno de ombrear com obras de Neil Gaiman. Com tanto elogio é difícil não ficar entusiasmado. Mas como declara sabiamente o Rogério nos comentários do post anterior, de nada adianta ter a oitava maravilha do mundo entesourada na página 100 quando o leitor já se fartou da história (ou, pior, da escrita) antes de chegar à 50. Diz também, e com razão, que os júris dos concursos nem sempre precisam de ler na íntegra os manuscritos que lhes são enviados. Como é que isso pode ser? perguntam vocês. Pode ser quando o autor se apresenta com frases destas, escritas no português de alguém que, claramente, não domina o idioma.

O que mais me admira é que este excerto, supostamente exemplificativo da qualidade do autor, consegue falhar antes de chegar à sexta palavra. Sim, eu percebo o que ele quis dizer. Vocês também percebem e, por isso, talvez desculpem a "gaffe" sem pensar no assunto. Mas o que está *realmente* lá escrito é que o relógio apitou, que o relógio meteu a pistola no coldre, que o relógio fixou o bastão no cinto, que o relógio vestiu o casaco e, finalmente, que o relógio saiu. Não só é péssimo português, como não conheço nenhuma língua que permita o abuso gramatical de mudar, sem aviso, o sujeito de uma frase.

Há pouco tempo lamentavam a insistência no conselho de se ler e escrever mais, mas não há outra coisa que se possa recomendar ao autor deste excerto, a menos que seja um compêndio de gramática (o que, convenhamos, não é uma leitura muito estimulante). Antes de alguém se declarar escritor de seja o que for, não seria preciso saber, pelo menos, transmitir com clareza e correcção uma ideia simples?

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Do excerto do Ricardo Fernandes: "Afinal de contas, era Arkham Caligula Andalorium, o maior Strategus que alguma vez vivera."

Quando leio frases assim, imagino-as acompanhadas por uma épica toada de trombetas ou então um trio de acordes dramáticos, consoante a ocasião. Pergunto eu: a reputação do protagonista não ficaria melhor (por exemplo) *demonstrada* pela adulação de uma ou várias personagens, em vez de declarada desta forma risível e maljeitosa pelo narrador? Think about it.

O problema da adjectivação do primeiro excerto também o encontro aqui, e o mesmo uso pleonástico. Por exemplo, será preciso dizer que o bebé é "pequeno"? Isso não está implícito na definição de "bebé"? Insistir na obviedade é tomar o leitor por burro.

Já agora, que obsessão é essa com os "orbes"? Está certo que "olho" não é uma palavra muito bonita, mas também não é motivo para se recorrer continuamente a vocábulos rebuscados para a substituir.

E por ora me fico. Desculpem se fui mais breve do que devia, mas ou termino isto antes de ir almoçar ou arrisco-me a ficar aqui o resto da semana.

Correio do said...

Em primeiro lugar os meus parabéns ao Francisco, que na sua tenra idade demonstra já uma força invejável. Será dele e de outros assim o futuro do fantástico nas artes.

O "acorde das almas" foi por mim aceite na Vollüspa (a fase, morosa, de selecção terminou e estou agora mesmo a enviar e-mails aos autores), é um excelente conto gótico que beneficiará de algumas alterações a serem discutidas com a autora, para que ao ritmo e ambiente gótico se possa reforçar um pouco a consistência do conto.

Quanto aos restantes textos darei a minha opinião ao longo do dia.

Roberto

Rogério said...

Para completar a minha opinião sobre a escrita do Mário Coelho, dirigi-me ao forum Allaryia.

O texto começa a repetir erros ciclicamente. Isto leva-me a emitir uma opinião genérica.

O tipo de narrativa e escrita que ficaram evidenciados são demasiado cansativos para suster a atenção do leitor pela extensão de um livro. Por outro lado, a narrativa é demasiado desfocada para permitir a eficácia exigida num conto. Daí, surgem duas sugestões: isolar mais um tema ou episódio, e criar um ou vários contos, explorando melhor personagens e cenário, ou simplificar a escrita e trabalhar com outro ritmo, mais arejado, depois de esquematizar a obra, porque parece haver aqui muito de "deriva" que influencia negativamente o resultado final.

Eu aconselharia a primeira opção, por ser aquela passível de dar mais traquejo ao autor, claramente ainda incapaz de adoptar uma "voz" orientada e minimamente eficaz.

Marttokas said...

Depois destes comentários dos "prós" há pouco que possa dizer,vou apenas deixar a minha opinião como vulgar leitora.

Sem duvida que o excerto de que mais gostei foi o N.E.M., principalmente da parte em que descreve a cidade pois conseguiu mesmo tranportar-me para o ambiente vivido, não gostei muito do restante texto mas isso é problema meu, não acho lá muita piada a textos futuristas (é uma mera opinião).

Achei uma certa graça Lágrimas Divinas, mas há sem duvida um excesso de adjectivos, eu prefiro uma narrativa mais "clean" e achei o dialogo de Kuro e Nostranus um pouco estranho para ter entre desconhecidos.

Quanto à Guerra do Oriente o excerto desperta um pouco de curiosidade de ler o resto mas, na minha opinião, os nomes estranhos tornam o texto difícil de ler e de conseguir distinguir as diferentes personagens.

Isto é só uma opinião de alguém que nunca tentou escrever nada, e que se limita a consumir todo tipos de livros, acho que se deve valorizar todos aqueles que em vez de discutir sobre o estado do fantástico em Portugal fazem de facto algo e produzem. E é claro que antes de escrever uma obra prima é preciso treinar muito antes.

Luís R. said...

Uma coisa que reparei nestes textos, e não posso mesmo deixar de comentar, é o abuso de pronomes. Ele é "os seus dedos", "o seu pai", "o seu coiso" e outras construções frásicas provavelmente decalcadas do inglês.

Tenho de apontar isto porque as constantes referências aos "seus", "suas", "eles" e "elas" revelam uma ignorância fundamental relativamente ao português enquanto linguagem de sujeito nulo subentendido. Isto significa que, uma vez estabelecido o sujeito, não é preciso voltar a referi-lo com um pronome enquanto persistir o contexto. Contrastem "O João foi à praia com a mãe" com "O João foi à praia com a SUA mãe". O segundo exemplo está incorrecto porque já se subentende que a mãe é do João e de mais ninguém.

Por falar em erros básicos, nem me lembrem dos "haverem" e "houverem" que de vez em quando apanho . . .

Rogério said...

Quanto ao excerto do Ricardo Fernandes, para além do excesso de pronomes pessoais já apontado, gostei muito do tom inicial, seguro, mas realmente depois perde um pouco de consistência.
E talvez a morte da Rainha/Imperatriz esteja um pouco alongada para quem é atingida directamente no coração...

Leto of the Crows said...

Luís,

É de louvar que critiquem e apontem erros, mas talvez pudesse evitar o tom que roça a ridicularização. No final de contas, errar é humano e é com os erros que se aprende melhor. Penso eu.

Luís R. said...

"É de louvar que critiquem e apontem erros, mas talvez pudesse evitar o tom que roça a ridicularização."

Se quisesse ridicularizar alguém, acredita que não só teria motivos mais do que suficientes para o fazer, como não estaria meramente a "roçar" a dita cuja.

Leto of the Crows said...

Sim, já tive provas mais que suficientes para não o subestimar em tal.

Francisco Norega said...

"Por falar em erros básicos, nem me lembrem dos "haverem" e "houverem" que de vez em quando apanho . . ."
Eh pá, já que falas nisso, não sabia que se metiam espaços entre as reticências. As coisas que se aprendem :)

Rogério said...

O background do conto do Carlos Eduardo pareceu-me bastante forçado. As personagens também me pareceram menos desenvolvidas que o desejável. Acho que é daqueles contos que ainda não sairam de esboço.
A racionalização pareceu-me um pouco martelada, principalmente o facto de se avançar para uma missão furtiva com um colete de explosivos! E se a jornalista estivesse a esconder algo para não correr o risco de matar o presidente, dificilmente seria expectável que isso estivesse guardado e etiquetado no arquivo, não?
Mas é uma boa base e acredito que o autor tenha capacidade de o melhorar.

Rogério said...

Então, meninos, estamos a descambar?! Não conseguem estar 2 minutos sem fazer o gosto ao dente, não?!

Toca a queimar as energias a opinar sobre os textos, sff! ;)

Rogério said...

E Francisco, nesta "casa", devias ser tu a dar o (bom) exemplo! :P

Francisco Norega said...

É verdade. Mea culpa. :S Mas há coisas que me tiram do sério.
Vou acalmar os ânimos e escrever um post com pés e cabeça.

Rogério said...

Ainda quanto ao conto do Carlos Eduardo, o principio não é muito cativante. Talvez esteja aí uma boa oportunidade de criar uma situação que defina melhor o perfil da personagem e as suas motivações.

Rogério said...

Balanço final:

Na minha opinião, um dos contos seria publicável com acertos ligeiros (Carina), um teria de levar uma volta conceptual e textual (Carlos), e os outros dois ainda estão numa fase inconsequente (Mário e Ricardo), com o último a demonstrar um pouco mais de à vontade na escrita.

Aliás, basta compararem o da Carina com os restantes para verem a diferença que fazem uma boa caracterização e consistência de tom e ritmo narrativos para o resultado final. Isso, em si, já seria um exercício recompensador para os restantes... (ou por outras palavras, a prova de que o narrador omnisciente na 3ª pessoa é uma escolha muito mais dificil de gerir com sucesso do que o narrador na 1ª pessoa. Mas isso é outra discussão!)

Joel Puga said...

Já agora, pode-se sugerir contos próprios para serem aqui analisados?

Francisco Norega said...

Contos próprios? Da minha autoria?

Francisco Norega said...

Ah, da tua. Obviamente que sim! Falamos por e-mail? eragon.norega@gmail.com

Anonymous said...

"Eh pá, já que falas nisso, não sabia que se metiam espaços entre as reticências."

Aí está um erro gravíssimo de português, capaz de vazar um olho (ou orbe???) a qualquer leitor.

Francisco Norega said...

Uma última pergunta, Luís. Já leste o texto da Carina R. Portugal?

Lord Aezrel said...

Antes de mais, identificar-me como sendo Ricardo Fernandes. Esse será o primeiro passo, simplesmente para não deixar dúvidas de que sou o autor da Guerra do Oriente.

Quanto aos comentários que foram aqui tecidos. Bom, como disseram, são apenas excertos, aliás, no caso do que foi publicado do Guerra, foi o epílogo (Luís R., daí Arkham ser o maior Strategus de todos os tempos, teve toda a história do livro por detrás para demonstrar a sua grandeza acompanhada de uma épica toada de trombetas).
É óbvio que desconhecias este facto, como tal o teu comentário é perfeitamente normal e está correcto. Mas dada a posição do excerto, parece-me que será minimamente desculpável o engrandecimento da personagem principal, uma vez que por esta altura já os leitores sentem algo pela personagem, seja amor, ódio, ou mesmo não sentirem nada e preferirem outra personagem.

Da tua parte só considerei desnecessário o "em vez de declarada desta forma risível e maljeitosa pelo narrador?"
Entendes que estamos aqui para criticar construtivamente, aliás, o mais difícil para mim como escritor não é escrever ou planear, mas sim receber boas críticas. Fundamentadas. E por boas críticas, claro, não entendo dizerem bem e considerarem-me como um bom escritor. De resto, gostei dos teus comentários, porque apontam objectivamente os defeitos do Epílogo. Mas a possibilidade do tom jocoso passa-me ao lado, por isso nem vale a pena usá-lo, caso fosse o caso. O que duvido, porque não te deves divertir, decerto, a criticar destrutivamente tudo e todos. =D

Rogério. Demasiados pronomes pessoais, ok, got it!
*aponta no bloco de notas para não se esquecer MESMO!*

Quanto à morte demasiado demorada da Rainha. Repara que a arma utilizada é uma Katar. Apesar de penetrar directamente no coração, a lâmina de uma katar não é suficientemente grande para provocar uma morte imediata, provocando, ao invés, uma hemorragia que a vai matar em minutos. E é isso que acontece. A Rainha morre em minutos. Repara que a maior parte do movimento da Rainha é mental e não físico, o que não lhe aumentava o ritmo cardíaco por aí além, não acelerando a morte. Ela pensa. Apercebe-se. Fica chocada, horrorizada pela frieza com que é morta. Mas não consegue reagir fisicamente. Apenas move os olhos/orbes/não tenho mais nenhuma palavra (infelizmente) e chora.

Aguardo mais críticas de ambos e de qualquer outra pessoa que escolha tecer uma opinião fundamentada como o Luís R. e o Rogério fizeram. Como disse, receber críticas boas(e não que elogiam apenas) é para mim o maior elogio.

Um muito obrigado.

Rogério said...

Para não estar aqui a falar para o boneco, fui verificar. Quando espetas a Katar, devem sobrar uns 10 a 15 segundos até ela morrer.
Parece-me bem.

Rogério said...

Ora então, Ricardo, construtivamente:

"A Imperatriz mantinha os olhos baixos, enquanto o Sol a iluminava. Chegou a Arkham devagar, ainda duvidando e temendo pela sua vida. Quando o olhou, quando fixou aquele par de orbes azuis e cinzentos, soube que não o devia temer em demasia. Afinal de contas, era Arkham Caligula Andalorium, o maior Strategus que alguma vez vivera. Trazia uma manta branca num dos braços, encostada ao peito. Desembrulhou-a e deu o flanco ao guerreiro."

Admitindo que o enaltecer da personagem é enquadrado pelo que vem antes, o que não era evidente, repara que há algo estranho neste parágrafo.
Onde está o ponto de vista do leitor? Começa por estar na Rainha, depois no Arkham, volta a ela, e acaba com uma referência esotérica ao "flanco", que imagino já estar a falar do bébé...

Quanto à primeira questão, repara que seria fácil de manter o ponto de vista: "Afinal de contas, estava perante Arkham Caligula Andalorium, o maior Strategus que alguma vez vivera."
Quanto à segunda, e parafraseando os brasileiros: "quem tem flanco é cavalo..." ;) E se estás a tentar usar a expressão popular portuguesa "dar o flanco", a coisa fica completamente anacrónica...

Lord Aezrel said...
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Lord Aezrel said...

Rogério.
Realmente essa do flanco foi uma questão que me surge muitas vezes. Geralmente quando escrevo tento fugir aos clichés, sejam eles de situações, sejam de palavras.
Isso leva-me a tentar descrever as coisas de forma o menos comum possível, o que por vezes cria expressões como "dar o flanco". Eu queria dizer: pôs-se de lado em relação ao local onde Arkham se encontrava. Deu-lhe o flanco.
É algo que me acontece muito, tentar alterar expressões para não ser comum. Umas vezes funciona muito bem. Outras vezes torna-se num ditado brasileiro que nem sequer conhecia. =D

Ocorre também que a frase se torne obscura, indecifrável, demasiado longa, ou seja, uma salganhada tal que ninguém percebe o que eu queria dizer. Na minha opinião esta é a maior falha no meu estilo de escrever, o manter uma clareza omnipresente. Apesar de ser constante, não é total. E nos raros casos em que não é total, não se fica por ser apenas um pouco estranho de ler. Vai ao exacto oposto - algo absurdo.

Se tiveres alguma forma de me ensinar a lidar com esta situação agradeço. Penso que não seja por falta de vocabulário. Tenho um vocabulário que sempre excedeu a minha idade, a minha faixa etária, até mesmo as seguintes e tant no ensino como na escrita pessoal sempre primei por um vocabulário mais cuidado que os restantes (penso eu), mas ultimamente tenho tido este problema em manter sempre tudo num mesmo nível.

Aliás, é nessa linha que vem o meu desejo de, nestas férias, rever e terminar o Guerra. Porque os capítulos iniciais não demonstram o mesmo nível dos finais. (o Epílogo não é um dos finais - espanta-te com a minha capacidade de escrever o epílogo antes dos capítulos finais... -.-').
Basicamente considero-me um old school writer. Escrevo à mão e depois passo as 50 páginas de manuscrito para um documento word. Trabalheira enorme. Mas ninguém disse que seria fácil. Mas isso permite-me também cuidar toda a obra primeiro na generalidade e só depois, então, capítulo a capítulo.

Independentemente da ausência de uma revisão ao Guerra que há muito desejo fazer, o texto vale pelo que vale e qualquer ajuda será muito bem-vinda! Tal como o serão mais críticas! =D

Francisco Norega said...

Quanto ao excerto do Mário Coelho:

Rogério,
Compreendo. Como é óbvio, tendo sido escrito por um rapaz de 15 anos, não se pode esperar uma obra-prima.
No entanto eu, pelo menos, acho que mostra um (se não grande, perto disso) potencial. Nada é extremamente bom - as personagens não são algo de outro mundo, mas eu achei-lhes piada; o enredo não é genial mas eu, pessoalmente, gostei imenso dele; a escrita tem algumas (diria muitas mas, tendo em conta a idade do mário na altura, não acho que sejam assim tantas) falhas, mas isso pode-se corrigir facilmente.
Em suma, o conto como está não está nada de especial, mas sendo reescrito e levando uma grande volta (com mais 3 anos de leituras e escrita em cima) acho que poderia dar um conto engraçado.

É o que eu digo, são BOAS obras, na minha opinião. Esta não é publicável, mas o BOM está lá. Só falta, na minha opinião, trazê-lo ao de cima :)
Mas isso sou eu que gosto de ver as coisas pela positiva.

--

Sendo mais concreto:

A cena da pétala. Acho que é como tu dizes :)
Ao longo do conto tornam-se momentos repetitivos. Penso, no entanto, que encurtando-se as passagens e dando uns toquezinhos na forma como está escrita, dariam um bom fio condutor à história.

«Expressões como "fumegante conteúdo", "abriram as surpresas bocas" e "duvidosas mãos", espalhadas pelo texto, criaram-me algum problema. Questão de estilo, talvez, mas mesmo assim...»
Uma questão de estilo, mesmo. O Yang (erm... Mário) não costuma escrever assim, mas veio-lhe a inspiração e pronto, deu nisto xD Penso que um pouco de prosa poética fica bem neste conto, ainda que neste momento esteja com um pouco de lirismo a mais.
É o que eu digo, uns toquezinhos... :P


Darei respostas ao resto dos comentários amanhã e depois, que por hoje já chega xD


Boa noite a todos!

Rogério said...

Simpatizo com o teu positivismo, mas atenção (e este comentário é genérico, não é dirigido a nenhum conto em particular):

Um mau conto não é necessáriamente um conto bom a que falta um jeitinho. Um autor limitado não é um autor bom em potencial ainda não desenvolvido, pode nunca passar de um autor limitado...

Luís R. said...

"Da tua parte só considerei desnecessário o "em vez de declarada desta forma risível e maljeitosa pelo narrador?""

Não é desnecessário porque, na sua forma actual, a frase está atabalhoadamente construída e carregada de uma pomposidade que a torna ridícula. Será risível? Ando a ler _The Cardboard Universe_, a biografia fictícia de um péssimo escritor de fc, e muito escárnio se faz de frases como a que citei, por isso atrevo-me a dizer que sim, é risível. Peço desculpa se não esclareci a minha crítica até à última minudência mas, como referi, estava de saída.

Mas tens razão, o facto de se encontrar no epílogo pode ou não mitigar estes factores, mas ainda assim acatava a sugestão que o Rogério fez, de apresentar antes a personagem pelos olhos da imperatriz --- algo que resolve a questão de uma vez por todas e é o primeiro passo para solucionar o problema das constantes metamorfoses do narrador.

Luís R. said...

"Uma questão de estilo, mesmo. O Yang (erm... Mário) não costuma escrever assim, mas veio-lhe a inspiração e pronto, deu nisto xD Penso que um pouco de prosa poética fica bem neste conto, ainda que neste momento esteja com um pouco de lirismo a mais."

Entrar em devaneios líricos é como erigir um castelo de cartas: se a mão treme, se a respiração pesa, perdes *todo* o efeito. É preciso confiança e saber fazer, e mesmo assim não garantes estar a salvo da náusea da sacarose.

Silent Raven said...

Olá a todos.

Li os excertos com toda a atenção que o tempo me permitiu e vou tentar ler os contos completos logo que possa.
Não vou entrar por aspectos mais particulares de cada excerto porque penso que os pontos essenciais já foram dito. Com alguns concordo e penso que são, efectivamente, aspectos a melhorar. Outros, como o uso da adjectivação ou a tendência para o lirismo, julgo serem opções de estilo próprio do autor e, portanto, não vou entrar por aí.
Além disso, eu sou apenas mais uma neste mundinho, com as minhas falhas e as minhas próprias opções de estilo (talvez nem sempre as melhores), por isso não me sinto no direito de entrar em juízos demasiado estritos. Digo só que, no geral, gostei do que li.
Alguns poderiam (e falo de acordo com o meu gosto pessoal, que vale o que vale) podiam ser melhorados (e, nesse sentido, os comentários do Rogério parecem-me bastante construtivos), outros para mim estão no ponto, mas todos têm algo de potencial.
Por último, os meus parabéns, Franscisco, por teres conseguido criar uma discussão construtiva e relativamente tranquila. Espero que algo de positivo resulte desta troca de ideias. :)

Mário Coelho said...

Boas.

Bem, já não me lembro quem criticou o quê no meu texto (Lágrimas Divinas, sou o awesome Mário de Seabra Coelho).

Não vou desculpar-me a dizer que os erros apontados se devem à minha idade na altura (15 anos) porque um ou outro aspecto provavelmente mantém-se, e propositadamente, algumas das criticas (não que eu tenha paciência para voltar atrás e apontar quais) são figuras de estilo, que podem não agradar a todos.

Fica para já anotado a redundância da adjectivação, ou o excesso. Nada que eu não tenha mudado entretanto.

Quanto às personagens, aí permito-me a discordar completamente de vocês. Não a fiz realistas, não tentei sequer, todo o texto tem um contexto algo... etéreo, para falta de melhor palavra. O Nostranus, ou lá como o gajo se chama, é uma besta só porque sim.

O excerto que o Eragon escolheu (o da Alisa e do Kuro) não é dos meus favoritos, certamente. Mas não vou negar que gosto do excerto de Deus (que só é percebido dentro do contexto, lendo o texto todo... e para quem tenha lido, estou satisfeito com a parte do homem das ligaduras).

Deus tem um discurso banal, e sinceramente foi propositado, não vejo a necessidade de associar o eloquente ao divino, tal como não se associa o vulgar. Ele tem um discurso acessível à personagem a quem se dirige, nem Deus precisa de ser elitista.

Aparte disto, ficam apontadas as críticas, mas nada que eu não tenha constatado ao longo de três anos ; ).

Sou de longe o escritor menos produtivo destes todos, não tenho tido incentivos que chegue, mas estou confiante que consigo produzir algo que os meus caros considerem de qualidade.

E já agora, estão interessados em ler um texto (non-fantasy, aviso já), da minha autoria, que eu considero de qualidade?

É um estilo de escrita mais solto e vago, que sinceramente duvido que vos agrade, parece-me que gostam de algo mais concreto, directo.

Mas pelo sim pelo não, dêem-me a vossa resposta.

Ou pura e simplesmente, leiam o Aurea Mediocritas que eu coloquei no fórum allaryia.

Carlos Silva said...

Boa noite.

Desde já obrigado por lerem o texto que o Eragon pôs aqui.

Permitam-me defender a minha dama:

Tens toda a razão nos erros que apontaste. A 1ª frase está uma aberração para a nossa bela língua à beira mar plantada (e pelo mar espalhada).

Quando o Eragon me pediu para meter aqui o texto eu compreendi que fosse apenas uma mostra de ideias. Longe de mim pensar que era para ser criticado como algo pronto a publicar.

NÃO É!

Por isso nunca submeti a uma editora. Porque não estava pronto! Porque quando me apetecesse iria dar uma volta naquilo.

Cresci muito (literariamente e não só em altura) desde que escrevi o conto e certamente escreve-lo-ia de modo diferente se agora pegasse nele.

Não aceito a crítica de me acusarem falta de leitura.
Não aceito e pronto.

Eu sou um bom falante da língua portuguesa. Do vernáculo ao científico. Posso dar erros, mas quem não os dá? Certamente com revisão minha muitos deles desapareceriam.

(depois podem apontar os erros deste post, se vos aprouver)

E sim! Concordo. O conto está longe de ser óptimo.

Carlos Silva said...

Ah, perdoem-me, mas não sei editar posts.

Quanto ao fazer uma missão de infiltração com colete de explosivos.
Eu escrevi isto antes de ler a novela gráfica do sr Moore. Mas parece-me muito a invasão da torre de televisão no V for Vendetta.

Quanto a arquivos de noticias estarem arquivados e etiquetados. Não sei se alguém se lembra há uns anos de um ministro ter entregue à assembleia da república o nome dos agentes dos SIS. No dia seguinte saiu uma cópia do documento desfocada no Publico (acho). Tenho quase a certeza que eles têm o documento focado em arquivo algures, identificado e catalogado.

Lord Aezrel said...
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Fire Fishie said...

And so, shall the Fishie post.

Discordo com coisas que foram aqui escritas, com estupidezes (e sim, eu posso escrever assim, pq n será um qq merdoso que so pq acha que sabe escrever que me vai impedir, e estou a falar do sr, direi besta, Luis R.) que aqui foram ditas, and so on and so forth. Concordo com outras, though.

Acho que mandar abaixo quem esta a aprender n é correcto. Para além de ser parvo. Acho que aqui se aplica uma certa... hum... dor de cotovelo. Sera apenas medo de perder mercado? Ou pura estupidez? Enfin, il n'intéresse pas. À moi non, anyway.

Concordo, no entanto, com a falta de motivaçao que pode exitir, especialmente apos comentarios destes. Be strong, and you shall be someone.

Para finalizar, agora ja mais calmo, ou entao nao, mas felizmente os meus contactos sao mts, n irei comentar sobre os textos, pq, sinceramente, n tenho tempo, e preciso de ir beber um copo.

Vedaust
.
.
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Anonymous said...

and i found yet another spam place! yay for the Fishie!!!


queri por isto no outro post, mas esqueci-me. happens.