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Sunday, October 18, 2009

Ainda o Rebuliço

Parece que a agitação que se tem verificado nas águas do Fantástico não é tão passageira como se poderia à primeira vista temer.

Este último semestre de 2009 tem já uma agenda fantástica muito preenchida, com O Fantástico em debate já no próximo dia 27 de Outubro, no auditório Maestro Frederico de Freitas em Lisboa.

Mas ainda antes disso, vai-se realizar a primeira de uma série de Tertúlias organizadas pela Simetria - Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico, no IST-Taguspark, na sala 0.32. Realiza-se já nesta segunda-feira às 19h00 e tem como título "Os Direitos das Inteligências Artificiais". Para além desta, realizar-se-ão ainda este ano outras duas, no mesmo sítio e à mesma hora, nos dias 16 de Novembro e 14 de Dezembro.
Ainda fruto do acordo celebrado entre a Simetria e o Instituto Superior Técnico, vai-se realizar uma feira de livros usados de FC&F, no campus do IST-Taguspark de 14 a 16 de Dezembro de 2009. [Segundo o blog oficial da Simetria, "A Feira do Livro ainda carece de uma autorização final para a sua realização", que esperam obter brevemente.]

E por esta altura deveria estar para acontecer o já clássico Fórum Fantástico, mas foi anunciado o interregno deste evento que, por razões já explicadas aqui, voltará apenas em 2010. Mas o Rogério Ribeiro, um dos nomes a quem mais o Fantástico luso como o conhecemos hoje deve, já meteu mãos às obras e garante-nos que não nos vai deixar desocupados - nos sábados 21 e 28 o Conversas Imaginárias, um conjunto de apresentações e debates, tomará lugar na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro. O Rogério promete-nos um evento inteiramente virado para participantes nacionais, com um dos sábados dedicado ao cinema e à concept art, e o outro à literatura e banda desenhada.


Mas como sem produção não há mercado, passemos então a novos desafios e concursos, que também surgiram nesta última semana.

Pela Saída de Emergência, foram finalmente abertas as submissões ao Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead para Doenças Excêntricas e Desacreditadas. Há muito que este tinha sido anunciado no site, mas apenas agora foi divulgado o regulamento do desafio. A editora, aproveitando a tradução para português da obra The Thackery T. Lambshead Pocket Guide to Eccentric & Discredited Diseases, onde podemos encontrar contribuições de autores como Neil Gaiman e Michael Moorcock, China Miéville e Alan Moore, lançou "o apelo a todos os médicos literatos de língua portuguesa para que submetam os casos mais excêntricos com que tenham tido que lidar na sua prática do dia-a-dia, por muito desacreditados que a medicina tradicional os tenha decretado", que figurarão no Almanaque junto de tão prestigiados autores. As submissões devem pautar-se, como é óbvio, "para além da maior competência clínica", por uma "irrepreensível utilização da língua portuguesa ao serviço de uma imaginação transbordante, original e satírica".

Não menos importante, ainda que acessível apenas a alunos, docentes e funcionários não docentes do Instituto Superior Técnico, é o Concurso Mini-Contos IST lançado pela Simetria, aberto a submissões com não mais de 150 palavras até dia 30 de Novembro.


Para terminar, referir a Colecção Мир, que será lançada pela Antagonista Editora já no primeiro trimestre de 2010.
Ficaremos todos de olho nesta nova colecção de Ficção Científica e Terror Fantástico.

;)

Monday, October 12, 2009

Dois ou três títulos e um Rebuliço

Nos últimos tempos temos tido uma forte movimentação nas águas do mercado português de literatura fantástica. E, tendo em conta as fortes reticências com que os leitores e editores recebem e publicam ficção curta, é com agrado que vejo diversas antologias e revistas a serem publicadas num tão curto espaço de tempo.

A Saída de Emergência preencheu, em Julho, um espaço do mercado de Ficção Cientifica em português que há muito urgia ser preenchido, publicando Com a Cabeça na Lua, uma antologia que recolhe diversos contos de autores como Heinlein, C. Clarke e Asimov, que escreveram sobre uma, na altura ainda hipotética, viagem à lua, e que traz ao público português dez exemplos da ficção cientifica "hard" da Golden Age. E agora, volvidos três meses sobre esta publicação, a SdE prepara-se para publicar uma colectânea de contos de Arthur Machen, "um dos homens mais importantes do início do século em escrita fantástica e no terror", intitulada, precisamente, de O Terror.
Também graças à Saída de Emergência, pudemos ler, no fim do semestre passado, na Bang! nº 6, diversos contos e artigos da autoria tanto de autores portugueses como de estrangeiros.
Passados uns meses, já depois da dissolução do fanzine Nova [RIP ='( ], Roberto Mendes e Rita Comércio quebraram o monopólio da Bang!, lançando o primeiro número da revista Dagon. Um formato algo diferente daquele a que temos sido habituados, mais próximo do público na medida em que não se limita aos habituais nomes do chamado fandom (atenção, emprego este termo sem qualquer preconceito), e mais abrangente, não se limitando apenas à literatura fantástica, mas estendendo-se às manifestações do Fantástico na música, no cinema e nas artes plásticas.
Mas também a Gailivro, que está igualmente de parabéns pelo trabalho que tem feito no meio, surpreendeu, publicando ficção curta. E mais, ficção curta portuguesa - As Atribulações de Jacques Bonhomme é o título da colectânea da autoria de Telmo Marçal, na minha opinião um dos nomes mais geniais da ficção cientifica lusa. E aqui gostava de fazer um pequeno aparte.

Enquanto Telmo Marçal é um nome desconhecido para a maioria dos fãs portugueses de fantástico, é, para mim, um dos nomes (a par de Luís Filipe Silva e Jorge Candeias, entre outros) que primeiro me vem à cabeça quando se fala de ficção científica portuguesa. Tomei o primeiro contacto com a sua escrita quando li a fantástica antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados, e rendi-me automaticamente. "O Pico de Hubert", para além de ser uma história passada numa distopia caótica, bem imaginada, com um enredo soberbamente orquestrado, é-nos nos dada a ler através da escrita de Telmo Marçal, sem dúvida dotado de uma grande mestria nesta arte.
Mais tarde, dei com alguns contos da sua autoria nos números 2 e 3 do Hyperdrivezine, que podem ser lidos aqui [foi o Ricardo Loureiro (também editor da recém-extinta Nova), um dos melhores editores de revistas que temos por terras lusas, na minha opinião, que o publicou pela primeira vez, ainda no formato website deste Hyperdrivezine], e no nº 5 da Bang!, que apenas fizeram reforçar a minha excelente opinião sobre o autor. Rapidamente se tornou, portanto, um nome a seguir com atenção.
No entanto, nos últimos tempos, nunca mais tinha ouvido falar dele. Foi, então, com alguma surpresa e muito agrado, que me deparei com esta colectânea. Finalmente em papel, depois de passar pelo Hyperdrive, "o Dragão Quântico, o Hyperdrivezine, o sítio Neolivros, a Scarium, o Tecnofantasia, o Phantastes, o Somnium[,] (...) a Nova" e, "até[,] (...) a antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados".
Ainda não li As Atribulações de Jasques Bonhomme, mas estou muitíssimo curioso. Valerá a pena a leitura, sem qualquer dúvida.
[Crítica de Rui Baptista ao livro do Telmo Marçal no Bela Lugosi is Dead.]

Mas voltando ao tema inicial do post, não só antologias, colectâneas e revistas têm dado movimento às águas outrora um tanto estagnadas do Fantástico português. Também inúmeros concursos têm surgido, aqui e ali, para escritores de ficção científica a steampunk, de fantasia a horror, sejam eles já consagrados ou estejam ainda a dar os primeiros passos.
Gostaria de começar por fazer referência à Antologia Vaporpunk, para a qual foi feita a última chamada na semana passada, no Efeitos Secundários. Prazo de submissão a acabar já dia 18.
Por outro lado, mas também no seguimento de um texto publicado por Luís Filipe Silva no seu blog, Roberto Mendes lançou no Correio do Fantástico um desafio que, idealmente, culminará numa antologia em que versarão sobre "a conquista do espaço, a colonização de outros planetas, (...) que tipo de humanos farão a conquista (ou se esta falhará) e, principalmente, utilizando como personagens centrais os portugueses desse tempo: serão portugueses conquistadores ou falhados?". Para ler aqui.
Mas também do outro lado do atlântico surgem projectos interessantes. Informa-me o Márcio: Até 15 de janeiro de 2010, a Andross editora estará selecionando contos para a coletânea Tratado Secreto de Magia, a ser lançada em abril de 2010 na Biblioteca de Literatura Fantástica Viriato Correa, em São Paulo. Nosso objetivo é receber contos relacionados não só com a magia, mas também feitiçaria e bruxaria, desde histórias que remetam à realidade histórica, como a Inquisição, até tramas que sejam ligadas à fantasia, no estilo Harry Potter. Este Tratado Secreto de Magia é apenas uma das antologias que a editora Andross está a organizar de momento. Moedas Para o Barqueiro será uma antologia de contos que terão como temática a Morte, e os textos poderão ser submetidos até 30 de Janeiro de 2010. 2054, como o próprio nome faz antever, será constituída por contos de ficção científica, enquanto que Histórias Liliputianas será uma colectânea de 50 microcontos sem nenhum tema padrão - os prazos para submissão são, respectivamente, 30 de Novembro e 15 de Janeiro. E, agora fugindo um bocadinho ao tema do post porque sei que interessará a alguns leitores do blog, a Andross está também a organizar um antologia de poesia intitulada Ecos da Alma. [Para mais informações e contacto dos organizadores, consultar a página de cada antologia.]
Por fim, apenas uma última referência à Antagonista Editora, que está à procura de autores lusófonos, não só de Portugal, do Brasil e de África, mas também de Goa, Macau e mesmo da Galiza.

Thursday, August 27, 2009

Mystery, Poetry & Romance

Dubowski shook his head. 'I think you're wrong. They'll find plenty of good, profitable ways to exploit this planet. But even if you were correct, well, it's just too bad. Knowledge is what man is all about. People like you have tried to hold back progress since the beginning of time. But they failed, and you failed. Man needs to know.'
'Maybe,' Sanders said. 'But is that the only thing man needs? I don't think so. I think he also needs mystery, and poetry, and romance. I think he needs a few unanswered questions to make him brood and wonder.'
Dubowski stood up abruptly, and frowned. 'This conversation is as pointless as your philosophy, Sanders. There's no room in my universe for unanswered questions.'
'Then you live in a very drab universe, Doctor.'

in With Morning Comes Mistfall, by George R. R. Martin


I'm with Sanders.

Wednesday, August 19, 2009

Genial, Mr. Martin

And then there is the second kind of loneliness.
You don't need the Cerberus Star Ring for that kind. You can find it anywhere on Earth. I know. I did. I found it everywhere I went, in everything I did.
It's the loneliness of people trapped within themselves. The loneliness of poeple who have said the wrong thing so often that they don't have the courage to say anything anymore.
The loneliness, not of distance, but of fear.
The loneliness of poeple who sit alone in furnished rooms in crowded cities, because they've got nowhere to go and no one to talk to. The loneliness of guys who go to bars to meet someone, only to discover they don't know how to strike up a conversation, and wouldn't have the courage to do so if they did.
There's no grandeur to that kind of loneliness. No purpose and no poetry. It's the loneliness without meaning. It's sad and squalid and pathetic, and it stinks of self-pity.
Oh yes, it hurts at times to be alone among the stars.
But it hurts a lot more to be alone at a party. A lot more.

in The Second Kind of Loneliness, by George R. R. Martin

Monday, July 27, 2009

Novo Fantástico em Português

É bom saber que as minhas palavras de anteontem não foram em vão. Como houve várias pessoas que mostraram interesse em ler alguns exemplos da tal "boa escrita" de que eu falo, vou deixar aqui alguns excertos e links.
Atenção que eu não digo que todos os títulos que apresentei estão prontos a publicar. Na minha opinião (que vale o que vale) todos são bons - o que não implica que alguns não precisem de uma revisão, ou de uma reformulação de algumas partes -, e alguns são de uma originalidade que deveria fazer inveja a muitos autores que andam para aí. Mas não são perfeitos, até porque a maioria é escrito por pessoas ainda jovens (alguns mesmo por menores de idade, a que não se pode exigir um nível de escrita que se exigirá a alguém que escreve há duas, três décadas).

O texto da Carina R. Portugal, O Acorde das Almas, pode ser lido aqui. Na minha opinião, é um excelente conto, passível de figurar na Bang! ou em outra revista de Fantástico.

Do Mário de Seabra Coelho (também conhecido por estas bandas por Yangsmoth), apontei o texto Lágrimas Divinas, que foi escrito quando ele tinha 15 anos (há três anos, sensivelmente), pois não tenho acompanhado os últimos textos dele (que, acredito, sejam ainda melhores).
Tem algumas partes que não passariam como estão para publicação, mas penso que no geral é um texto que, se não pode ser publicado (que penso que pode), mostra um grande potencial de quem o escreveu.
Aqui fica um excerto (com a devida permissão):
Transportada pelo teimoso vento, a pétala ultrapassou as imponentes muralhas brancas da cidade de Jazlul, descendo e razando um telhado. Voltou a virar de direcção ao aproximar-se de outro edifício, e desceu por um beco escuro. Através de sombras, brados e gemidos, a pétala viajou. Libertou-se das trevas e partiu para o centro da cidade. Esvoaçou através da praça, esquivando-se de membros e rostos exaltados. Penetrou por uma janela e volteou em direcção à única pessoa presente naquele compartimento. Deslizando suavemente, acariciou a face da rapariga com o seu toque cândido, e partiu por outra janela, em direcção ao céu.
A jovem levou os seus dedos à bochecha de pele nivea e franziu o sobrolho. Uma voz rouca chamou por ela: — Alisa, vem!
Ela ergueu-se da cadeira onde estava sentada, alisou o vestido, e partiu em direcção ao chamamento.
— Alisa, ajuda-me aqui com esta panela... Os meus ossos estão cada vez mais fracos. — Pediu o seu pai, cujo rosto barbudo estava contorcido numa careta de dor enquanto levantava uma panela. A filha ajudou-o, e os dois transportaram o objecto para cima da mesa. O homem observou o fumegante conteúdo com ar satisfeito.
— Parece delicioso... — Afirmou Alisa, curvando-se para olhar a sopa.
O seu pai ergueu o olhar para a rapariga, e o seu bigode obstruiu parte do sorriso bondoso. Acariciou-lhe os cabelos cor-de-mel. — És a face esculpida da tua mãe, filha. Que Deus proteja a sua memória.
Tristeza patenteou a sua presença nos olhos verdes da rapariga. Que mesmo assim respondeu ao sorriso com um semelhante.
— Vamos comer, se não arrefece. — O pai foi buscar dois pratos de barro e poisou-os na mesa. Com uma colher de pau, encheu os pratos de sopa espessa. Depois de uma curta prece, começaram a comer em silêncio.
Foram interrompidos minutos depois por duas batidas secas na porta. O pai demonstrou intenção de se levantar, mas foi impedido por um toque gentil da filha, que foi abrir a porta.
Um rosto ligeiramente encoberto por um capuz branco sorriu-lhe. — Boa-noite, jovem. Venho à porta deste gentil lar para pedir guarida da chuva, durante esta fria noite. — Como que para o apoiar, a chuva aumentou de intensidade.
— Entre, entre! — Disse a voz do pai de Alisa, que ouvira o pedido. — Venha partilhar uma refeição quente connosco.
Alisa deixou o homem alto entrar, e os dois caminharam em direcção à mesa. A jovem sentou-se, e o homem fez o mesmo depois de pedir licença.
— Kuro Sellan. — Apresentou-se o pai de Alisa, estendendo uma mão distorcida por reumatismo.
— Nostranus. — Respondeu o visitante, aceitando o cumprimento enquanto puxava o capuz para trás, revelando um rosto de meia-idade e calvo, de limpidos olhos negros e testa alta.
— Então diga-me... É de fora? Tempos negros para um viajante. — Comentou Kuro de maneira conversadora.
— De facto, tempos mais negros do que aparentam, senhor Sellan. — Longos dedos entrelaçaram-se debaixo do queixo. — O Homem enfrentou o Céu, e foi auxiliado pela Mãe Terra. Mas o próximo confronto terá um terceiro participante... O Mal Encarnado, o Senhor das Chamas.
O sobrolho de Kuro ergueu-se.
— Divagações de um louco, meu amigo. — Esclareceu Nostranus. — Céu, Homem e Fogo. Diga-me, Kuro, o que é um homem senão uma tela pintada pelo tempo? — Levou outra colher de sopa à boca e sorriu perante os olhares de incompreensão. — Infelizmente, existem duas influências exteriores. O Mal e o Bem. Os lados opostos... — Enquanto falava, tirou uma moeda do bolso e atirou-a ao ar. — Da mesma moeda... — A moeda caiu, e para surpresa de pai e filha, manteve-se equilibrada pela parte lateral. — Amor e ódio, riso e choro... Os opostos necessitam-se, Kuro. Atraem-se como melgas para o fogo. — Levou as mãos à frente do rosto e esticou os indicadores. Como que por magia, um cubo de gelo apareceu na ponta do indicador esquerdo, e uma chama avivou-se no indicador direito. — Lentamente, aproximar-se-ão... — Quando os dedos se tocaram, o fogo extinguiu-se e o gelo derreteu, escorrendo em água por entre as mãos do homem. — E serão uno. Por fim, libertos do Mal e Bem. Do Céu e do Fogo.
Alisa e Kuro abriram as surpresas bocas.
Nostranus recostou-se na cadeira, e o seu sorriso morreu ao fitar pai e filha. — Os homens são feitos de sonhos e memórias. Lembrem-se disso. — Suspirou. — E aproveitem o tempo que vos resta juntos. — Naquele momento, pareceu envelhecer vinte anos.

Milhões de vozes etéreas rugiam nas margens da longa estrada de pedra calcetada que aguardava diante de Aazaad. Homens e mulheres de variadas raças berravam uma cacofonia de pesadelo. Demónios voavam por cima do jovem, soltando risadas sarcásticas, e anjos abanavam as belas cabeças em desagrado.

No fim da estrada, um trono de ouro, rodeado de imponentes colunas. Sentado no trono, a mais estranha criatura que Aazaad já vira, repousava. O seu eterno olhar poisado em si.
Trémulo e assustado, Aazaad começou a caminhar, olhando em frente e tentando ignorar os milhões de inimigos que o ameaçavam, insultavam, e provocavam, mas que no entanto pareciam ter receio de erguer uma mão contra si.
Cada vez mais próximo... Conseguia sentir o peso da observação da criatura sentada no trono.
Mais alguns passos... e fascinou-se com a visão do que se sentava no trono.
Era uma criatura bizarra, pois parecia estar constantemente a mudar de forma, cor, género e raça. Ou era uma serpente alada, um homem gordo de pele morena, um homem de barbas brancas e aparência bondosa, um sujeito andrógino, divinamente belo. Um homem de seis braços e terceiro olho entre as sobrancelhas. A única coisa que não parecia mudar, era o olhar nobre que vergava Aazaad. Encolhendo-o... Parecendo sondar-lhe a alma.
Encontrava-se agora a metros do trono...
— Bem-vindo, Aazaad. — Cumprimentou a voz que parecia possuir milhões de tons diferentes. Um coro etéreo em permanente concordância.
— Quem és tu? — Conseguiu Aazaad perguntar.
— Alah, Shiva, Quezacotl, Zeus, Jupiter, Deus. Chama-me o que o teu coração desejar. — Replicou o ser divino.
— Deus... — Murmurou o jovem, incrédulo. Os seus joelhos tremeram.
— Sim... A escolha mais comum. — Concordou.
— O que faço aqui?
Os brados das criaturas que os circundavam pareceram aumentar de volume.
— Tu sabes, Aazaad. Sou Deus, criado pelo homem, e se tu assim desejares, por ele destruido. Por ti destruído. — Declarou Deus, ignorando as cada vez mais barulhentas criaturas. — Tens uma escolha diante de ti. Mata-me, e quebra a barreira que separa o Céu e o Inferno da Terra. Ou poupa-me, e deixa o destino do Homem nas minhas duvidosas mãos.
E finalmente, Aazaad compreendeu a indignação dos gritantes seres.
— Não tens o direito!
— Mereces arder nos confins do Inferno!
— Poupa o nosso Pai! Poupa o Todo-Poderoso!
— Tirano! Assassino!
— Inconsciente! Não o faças!
A escolha era sua.
A mente do jovem fervilhava... Deveria matar Deus, causando assim o caos terreno, mas libertando a humanidade, dando-lhe a possibilidade de forjar o próprio destino? Ou poupá-lo? E deixar o destino da Terra entregue a uma Entidade.
— O destino do Homem, para o Homem. — Escolheu Aazaad, desembainhando a sua espada. Deus dispensou um único olhar à arma antes de voltar a encarar o seu futuro assassino.
Aço penetrou num coração imaterial, e silêncio abateu-se sobre aquela extensão monótona.
— Escolheste então... O Apocalipse. O fim... Ou o início? — Referiu Deus, cuja imagem tremia, como tinta diluindo-se em água.
[Texto completo aqui.]

De Carlos Eduardo, acho muito boa a ideia do N.E.M.(esis), e ainda melhor (muito melhor xD) a o Hedonê. Infelizmente este último está longe de estar pronto, por isso vou deixar apenas um excerto do NEM:
O relógio apitou, meteu a pistola no coldre e fixou o bastão eléctrico no cinto, vestiu o casaco e saiu. Lentamente, tentando não dar nas vistas começou-se a dirigir para o enorme edifício predominante em toda a cidade. Daniel parou no parque, à sua frente estava a torre. Falhara nos seus cálculos, o turno ainda não mudara. Para ocupar o tempo sentou-se no parque e fitou o magnífico memorial ao resto do mundo. A cidade onde vivia era o projecto mais arrojado alguma vez feito pelo homem. A inspiração tinha vindo da experiência de 1991 a 1993 em que oito pesquisadores se tinham isolado numa estufa de 17 000m2 tentando descobrir como funcionava o enorme ecossistema que era a Terra. O intitulado Projecto Biosfera 2. Mas desta vez o objectivo era diferente, consistia em criar uma cidade isolada do resto do mundo em que o homem pudesse viver. As obras concluíram-se com sucesso, a engenharia humana testemunhava um enorme triunfo. Uma cidade, altamente confortável, ecológica e prática fora construída sob várias cúpulas interligadas entre si. Era abastecida por robots que trabalhavam em campos de cultivo anexos que formavam um anel á volta da cidade. Quando concluída a cidade era um exemplo para todos, enormes espaços verdes para o conforto dos habitantes, casas espaçosas e belas, instituições com os melhores equipamentos possíveis de imaginar. Uma pequena sucursal da grande empresa mecenas deste projecto, a Natura ExMachina, ficou encarregue de gerir os serviços da cidade. Quando as primeiras famílias se mudaram para a cidade não houve nenhum erro a apontar, em pouco tempo a cidade preencheu as vagas de população que necessitava.
Como estava acordado, a N.E.M., foi passando gradualmente os organismos da metrópole para privados, desde fábricas a órgãos de soberania.
De repente o inesperado aconteceu. As portas da cidade selaram-se. Em poucos minutos a N.E.M. anunciou o acontecido. Houvera um ataque terrorista de nível apocalíptico. Ao mesmo tempo, em todo o mundo, milhares de obuses explodiram libertando para o ar um novo vírus modificado me laboratório extremamente contagioso. Felizmente a cidade estava longe de qualquer foco populacional e a informação viajou mais depressa que o vírus. De ali em diante a cidade teria de subsistir por si própria.
Embora a vida não fosse tão luxuosa como dantes, era bastante agradável. A cidade prosperara, a Natura ExMachina controlava agora apenas parte do sector de investigação científica e os órgãos de comunicação. Foi criada uma nova Internet referente apenas à cidade, já que o resto dos computadores mundiais carecia de utilizadores. O monumento tinha escrito tudo isto sob a forma de um friso que crescia em espiral em direcção ao céu suportado numa maqueta da cidade que por sua vez repousava sobre uma superfície curva que invocava a terra.
Os guardas de substituição aproximavam-se. Um de cada lado da rua. Daniel pôs-se em acção. Surgiu por detrás de uma deles e com um golpe rápido e seco com o bastão eléctrico deitou-o por terra. Retirou-lhe a identificação que dizia que se encontrava ao serviço da N.E.M. e colocou sobre a sua farda. Tudo correu como previsto. À porta cumprimentou os guardas, e ocupou no edifício o local de vigia. Não esperou muito até a torre mergulhar no completo silêncio, cuidadosamente observou o cenário à sua volta. Havia câmaras, detectores de calor som e movimento, o chão estava repleto de detectores de pressão. Se Daniel pisasse fora do seu local do seu posto de vigia sem ter accionado o alarme, este soaria, denunciando a sua traição.
De repente o corredor encheu-se de fumo. O alarme soou, alguém tentara penetrar nas defesas da torre da Natura ExMachina., numa fracção de segundos todos os guardas, incluindo Daniel, tinham colocado os visores termográficos. A confusão inicial depressa se transformou numa demanda organizada pelo homem que ousara entrar furtivamente na torre.
Um grupo de guardas deu o sinal, tinham localizado o invasor. Tinham-no cercado, Daniel sacou do bastão eléctrico e da pistola dando sinal que mataria se fosse necessário. O primeiro guarda atacou de bastão em punho, a arma vibrou rente à cara de Daniel que se tinha desviado de modo a defender o ataque vindo de trás. Os guardas guardaram as armas, como estavam em circulo qualquer tiro seria bastante propício a acertar nos colegas. Daniel varreu com o bastão uma vasta área acertando em alguns colegas seus imobilizando-os devido á carga eléctrica. De todos os lados choviam ataques. Daniel girava sobre si próprio, saltava, dobrava-se, fazendo os possíveis para não ser atingido. Com o bastão estocou um dos guardas e, usando-o como aríete abriu caminho por entre o cerco que lhe tinham feito. Mal se viu fora do círculo de guardas correu a toda a velocidade para a sala de arquivo. Mal soara o alarme os andares foram todos selados, mas Daniel previra isso ao colocar-se no andar dos arquivos.
A toda a velocidade, perseguido de bastante perto pelos colegas de trabalho, percorreu todo o corredor de encontro à porta da sala dos registos audiovisuais. Sacou da pistola e apontou para quem lhe perseguia.
- Para trás… – Arfou. – Não me obriguem a disparar!
Daniel precisava de ganhar tempo para a máquina que ligara ao painel de abertura da porta conseguisse forçar a entrada. Os guardas que o perseguiam puseram-se em posição de disparar.
- Se dispararem levo-vos comigo! – Avisou abrindo o casaco exibindo a carga de explosivos que acabara de activar.
Seguiu-se um momento de tensão. Por breves segundos tudo ficou calmo, apenas o bater do coração se sobrepunha ao silêncio. Os números corriam na máquina ligada ao painel de abertura da porta. Os guardas puxaram o gatilho, as balas voaram, a porta abriu, Daniel saltou para dentro da sala. Quando caiu do lado de dentro agarrou-se à perna, havia sido atingido de raspão, mas a visão que teve de seguida fê-lo esquecer de tudo.
[Texto completo aqui.]

Sobre Ricardo Fernandes, não me vou alongar. Deixo-vos aqui um excerto do primeiro Tomo d' A Guerra do Oriente:
Sentou-se no murete, com as costas contra uma das colunas. Hábitos velhos de guerreiro não desapareciam de um dia para o outro, pensou, um sorriso florescendo-lhe nos lábios. Ouviu passos incertos na pedra ao seu lado. Olhou em direcção da pequena ponte de pedra. O seu corpo ficou hirto. Atravessando a ponte, vinha a sua Rainha. Sobrevivera à batalha, pensou para si mesmo. A mulher trajava toda de branco, um vestido justo da cintura para cima e largo da cintura para baixo. Na testa usava um pequeno fio de ouro com um pingente azulado de tamanho diminuto. Fio de ouro enrolava-se também em torno da sua esbelta cintura. Arkham encaminhou-se para a mulher que servira.
A Imperatriz mantinha os olhos baixos, enquanto o Sol a iluminava. Chegou a Arkham devagar, ainda duvidando e temendo pela sua vida. Quando o olhou, quando fixou aquele par de orbes azuis e cinzentos, soube que não o devia temer em demasia. Afinal de contas, era Arkham Caligula Andalorium, o maior Strategus que alguma vez vivera. Trazia uma manta branca num dos braços, encostada ao peito. Desembrulhou-a e deu o flanco ao guerreiro.
Um pequeno e enrugado bebé dormia no meio da manta branca. Tinha uma compleição aparentemente frágil, mas Arkham sabia reconhecer os sinais. Teria um tronco forte e braços duros e grossos, se treinasse. As pernas seriam provavelmente esguias e fortes, dando-lhe vantagem de velocidade. Quando se aproximou mais, a criança acordou e abriu os olhos. O par de orbes vermelhos-sangue fitou o par de azuis-acinzentados. Arkham sobressaltou-se ligeiramente, sentindo o formigueiro no corpo. A criança. Claro. O filho da Imperatriz e de Eblis Dammar. A mulher estava ali para implorar pela vida da criança, não para se entregar ao amor de Arkham. Uma sensação animalesca agitou-se dentro de si. Algo primário reagiu ao olhar fixo e concentrado da criança. Não seria uma criança normal. Não sendo filho de Eblis Dammar. Olhou a mulher nos olhos e compadeceu-se.
Arkham Caligula Andalorium, Strategus, veterano de várias campanhas, compadecera-se do sentimento que viu nos olhos da mulher. Já não era a mulher que ele amava. Mas respeitava-a ainda. Tivera coragem. Fora até ele, sabendo que poderia morrer. Entregar também o recém-nascido à morte. Sorriu. Um sorriso frágil e inseguro. Mas aproximou-se da Imperatriz. Não. Da Rainha. Seria sempre a sua Rainha.
- Strategus? – Ouviu a mulher dizer solenemente.
- Sim...? – Respondeu, sem saber que mais dizer.
- Tomai conta do meu filho... Do nosso filho. Promete-me que o treinarás na forma Andalorium. Isto, se me aceitares como tua esposa. – Disse, de novo com aquele olhar doce e inocente.
- O nosso...filho? – Perguntou Arkham confuso.
- Tem o mesmo poder que tu nos seus olhos. Só poderia ser um filho teu para ter tamanho poder no seu seio. Arkham. Casai-vos comigo.
O homem sorriu. Era tradição ser o elemento masculino a pedir o casamento naquele território. Sorriu um pouco mais e abraçou-a. Tomou no seu braço a criança e a manta e abraçou a Rainha com o braço e mão livres. Era um meio-abraço. Um meio-abraço virado para o sol que entretanto subira um pouco no ar. Banhados naquela luz amarelada, cheia de vida e calor. Estavam no centro da sala circular.
- Arkham ?! – Ouviu-se a voz surpresa da mulher.
O Strategus não respondeu.
- Co...Como foi que... – Tentou ela articular.
O corpo tombou para trás, as mãos segurando o local onda a lâmina fina da katar que Arkham tinha escondida no braço, sob a manga larga da camisola, tinha penetrado. A mulher tombou de costas com um baque seco e enjoativo. A lâmina entrara directamente no seu coração, pensou a Rainha. Arkham usara o braço com que segurava o seu filho. Matara-a. Matara-a enquanto embalava o seu querido filho nos seus braços de assassino. Não lhe dera ainda um nome, sequer, pensou, lágrimas rolando verticalmente pelas suas faces, caindo-lhe nas orelhas que começavam já a esfriar. Tentou olhar para cima. O corpo começava já a desobedecer. Moveu os olhos para baixo. Arkham mantinha-se onde estava, segurando com um braço a criança no seu manto e deixando o braço direito pendendo ao lado da cintura. A lâmina da katar do braço esquerdo estava brilhante com o sangue da mulher e empapara o tecido da manta da prole Dammar. Arkham fitou-o uma vez mais. E o pequeno rapaz fitou de volta. De novo o azul contra o vermelho dos orbes. Sorriu à criança. Baixou-se e enfiou o dedo indicador na ferida da Imperatriz, fazendo-a gemer de dor. A ponta do dedo estava coberta de sangue. Passou o dedo pela testa do recém-nascido, deixando uma cruz de sangue na carne.
- Eu te baptizo Sethius Caligula Andalorium. Serás o meu herdeiro. Manter-te-ei longe da escória igual aos teus progenitores.
A mulher gorgolejou no solo. Reunia forças, pensou Arkham.
- Strate.. Stra...Ar...kham. – Murmurou de forma desconcertante. O homem desviou os olhos, mas forçou-se a olhar. Os seus olhos mantinham-se azuis, o que chocou a Rainha. Matara sem que o seu íntimo fosse alterado. Aquilo nunca acontecera. Nunca ...
Os olhos da mulher esbugalharam-se de espanto. O Strategus era um guerreiro pleno, um veterano, capaz de controlar o próprio íntimo. Soltou um gemido.
- Até sempre, Ardana Movinter. – Disse Arkham, virando costas à mulher que falecia. Caminhou de encontro à pesada porta. Abriu-a com a mão livre, continuando a embalar o rapaz que mantinha o olhar fixo na cara do guerreiro. Desapareceu por detrás da madeira, enquanto o último estertor da morte agarrava o corpo de Ardana, antiga Rainha das Ilhas, antiga Imperatriz do Continente. Terminara. Agora sim, a guerra da reconquista terminara. Tinham finalmente despertado os Reis do amanhã.

Gostaria de deixar aqui mais uns excertos, mas por enquanto ainda não recebi respostas dos autores.

Fico à espera de comentários.

Sunday, July 26, 2009

Together We Stand, Divided We Fall

No Correio do Fantástico tem-se discutido o estado do Fantástico em Portugal, aprofundando-se a questão e expondo-se vários pontos de vista. Até hoje, fiz questão de me abster, pois a minha maneira de escrever por vezes pode ferir susceptibilidades e não queria descer tão "baixo" como por vezes se desceu ao longo da discussão. No entanto, acho que, sendo um amante do fantástico como sou, não consigo manter-me mais calado perante tanto pessimismo junto.
Eu sou um pessimista nato (e cada vez mais, a cada dia que passa) mas, quando me falam do "estado moribundo" do Fantástico em terras lusas, não consigo permanecer indiferente.

O Fantástico em Portugal está Bem. Sim, Bem com B maiúsculo.
Não há quem escreva bem e com originalidade, dentro do género? Há. Carina R. Portugal, Catarina Albuquerque, Henrique Estrela, Ludovico M. Alves, Carlos Eduardo, Ricardo Fernandes. Uns têm, certamente, mais prática que outros, mas todos têm grande potencial para se tornarem os novos nomes do género, na minha humilde opinião. A Artífice (de Catarina Aluquerque), O Acorde das Almas (de Carina R. Portugal), A Guerra do Oriente (de Ricardo Fernandes), Lágrimas Divinas (de Mário de Seabra Coelho), e N.E.M.(esis) e Hedonê (de Carlos Eduardo). Esta última obra, atrever-me-ia a compará-la a uma qualquer do Neil Gaiman, em termos de originalidade. E não digo isto só por dizer - quem me conhece bem sabe que não evoco o nome do Neil em vão (xD)-, o Hedonê é MESMO bom!
Todas estas são BOAS obras, não-derivativas de Paolini e afins, que se podem encontrar pela net, em diversos foruns. Apenas comecei a conhecer este mundo virtual há pouco mais de três anos e já encontrei todas estas obras excelentes, que acredito que não são nem um centésimo da boa literatura fantástica que anda por aí (já para não falar nas obras que nunca conheceremos por estarem guardadas nas gavetas). E, todas elas, obras desconhecidas do grupo de reconhecidos autores e editores de literatura fantástica (o "Fandom", chamemos-lhes assim, erradamente ou não, mas chamemos-lhes assim [sem qualquer sentido depreciativo]).
Então o que é que falha?

Ora bem, vou reformular - a produção de Fantástico em Portugal está Bem. O que falha, na minha opinião, é a comunicação entre o Fandom e os comuns leitores, que são os escritores de amanhã. Se é necessário registar-se num fórum sobre As Crónicas de Allaryia ou sobre o Eragon para ler bons (ou promissores) autores que, quiçá, poderão ser publicados num futuro próximo e dinamizar o género no nosso país, porque não? Mostrem aos comum escritores que podem ser publicados e, àqueles que ainda não são suficientemente bons para isso, que podem melhorar neste, neste e neste ponto. Afinal, também o João Barreiros, o Luís Filipe Silva, o António de Macedo e o Jorge Candeias escreveram mal, em alguma altura das suas vidas.
Respondam a quem envia submissões para a Bang!, mesmo que os contos sejam uma merda. Mas respondam, sugiram pontos a melhorar, clichés a evitar, etc.
E quando há concursos de Literatura Fantástica (como foi o caso do Prémio BANG!), dignem-se a responder individualmente. Quem despende longas horas do seu tempo a ler uma obra que não tem qualidade suficiente para ganhar o prémio também pode gastar mais uns minutos a enviar um e-mail ao autor, a apontar os erros que fizeram com que a obra NÃO ganhasse o prémio.

E o Roberto falou em criar-se uma Associação ligada à FC. Não digo que não seja boa ideia, mas penso que é prioritário investir na divulgação, publicação e formação de novos autores. Para registar uma associação, para além de imenso tempo, ir-se-ião gastar quase 500€ (assim só do registo), que poderiam ser investidos em coisas mais úteis no imediato (edição da Vollüspa, por exemplo).
É importante criar mais revistas do género, divulgá-las e garantir que têm uma boa visibilidade nas livrarias. É importante fomentar workshops.

Eu estou com o Roberto, cheio de vontade de "levar o género às alturas". Não sei quem está connosco, mas sei que preferia que em vez de serem escritos mais uma centena de textos lamuriantes sobre o estado do Fantástico em terras lusas, todos déssemos as mãos por um futuro melhor para o género!


Peace!



PS: Não estou a escrever isto para atacar ninguém, nem por ter o orgulho ferido por alguma vez me terem ignorado ou recusado alguma coisa, como algumas pessoas do Fandom acusaram o Joel e o Pedro, por exemplo.
Ah, e não referi nomes como Telmo Marçal ou Carla Ribeiro pois, ainda que com pouco destaque, vão sendo conhecidos dentro do género.

Saturday, March 7, 2009

É isto uma Tertúlia, não é? :P

Ontem, foi uma das melhores noites dos últimos meses, para mim.
Conheci um pouco da noite de Coimbra. Coimbra, uma cidade famosa pela sua intensa actividade nocturna (ou não fosse um cidade de estudantes! :P). Para ser sincero, não gostei especialmente do ambiente, pelo contrário - é extremamente difícil falar com alguém com tanto barulho. Mas o que me agradou mais foi a companhia.

Mas contextualizando:
Ontem, às cinco e meia da tarde, houve o lançamento do número 11 da revista "Oficina de Poesia", no TAGV (Coimbra). Na minha opinião, esta revista é de louvar pois é das poucas que existem neste país graças a uma mulher. E mais - que tem a coragem de publicar poesia de autores não-consagrados.
O número inaugural desta revista data já de 2002, e esta é, desde aí, dirigida por Graça Capinha, professora na Fluc, e editada pela Palimage.
Este número 11, no qual a minha mãe viu o seu primeiro trabalho publicado (:D), conta com a normal presença dos alunos que participam nas cadeiras de Poética e Escrita Criativa e de Oficina de Poesia (que dá o nome à revista), leccionadas pela Graça Capinha. Isso não é novidade, mas neste número podemos também ler poesia dos "Poetas em Residência", o americano John Taggart e a italiana Cristina Babino. Pouca é a poesia de que gosto realmente, mas os poemas de John Taggart deliciaram-me completamente.
[Em conjunto com o nº 11, já do ano passado mas um pouco atrasado, foi lançado também o nº 12, desta feita com textos dos poetas residentes Márcio André, brasileiro, e Miro Villar, galego.]

Depois disso, estávamos eu e a minha mãe a pensar o que fazer a seguir, quando a Graça chega ao pé de nós e nos pergunta se não queremos ir ao jantar dos poetas. A minha mãe aceitou (e eu todo contente =D), e lá fomos nós com outros dez poetas, entre eles o Márcio André e o Miro Villar, jantar num restaurante absolutamente fantástico, na parte velha de Coimbra.
Nos últimos meses tenho feito um esforço para me tornar mais sociável, para ser mais "normal", mas ontem senti-me sem dúvida um peixe dentro de água. Desde os temas de conversa (música, literatura, cultura, poesia) ao português usado (um português melódico, correcto), sempre com muita descontracção e humor inteligente (ou não :P) à mistura.

Depois de o jantar acabar, veio a parte mais interessante, na minha opinião.
Fomos para um pequeno e rústico bar na Sé Velha. Éramos apenas cinco, o que proporcionou conversas, na minha opinião, mais "profundas". Pudemos falar mais entre nós, de assuntos desde o Acordo Ortográfico às condições de vida no Brasil, passando por problemas sociais, sociedade e política, ou mesmo a ausência dessas.
Houve um verdadeiro intercâmbio de culturas - nós bebemos da cultura brasileira, através do Márcio André, e ele bebeu da nossa.
É fantástico como, num dia, conheci tanta gente com maneiras de (vi)ver as coisas tão interessantes e totalmente diferentes do grosso da população mundial. Visões que, muitas vezes, coincidem com as minhas. :)

Os poetas são mesmo seres fantásticos! ;)


[Links que vos poderão interessar:
- John Taggart na Wiki
- Site de Márcio-André
- Site da Palimage]


PS: Podem ver a lista dos números publicados da "Oficina de Poesia" aqui. Para quem estiver interessado em adquirir a revista (ou as revistas :P), mandem um e-mail para palimage@palimage.pt ;)

Friday, February 27, 2009

Poe

Aproveitando o bicentenário do nascimento de Edgar Allan Poe, o Círculo de Leitores lançou uma edição completa dos seus contos.
Nos dois volumes, a 39,96€ cada, estão reunidos os 69 contos da pena do Mestre do Fantástico. Com tradução do inglês por J. Teixeira de Aguilar (responsável também pela tradução de "Histórias Extraordinárias", na publicação da Europa-América), a Círculo de Leitores apresenta-nos uma edição de luxo, com capa dura e ilustrações deliciosas (como as que podem ver nas imagens ;)).
Não conheço bem a sua Obra, mas faço tenções de passar conhecer nos próximos tempos. Já mandei vir! =)


Também por ocasião dos dois séculos desde que o autor veio ao mundo, vai-se realizar na Flul um Colóquio intitulado "Poe e Criatividade Gótica". De entre os oradores convidados encontram-se alguns nomes possivelmente vossos conhecidos, como David Soares, António de Macedo e Luís Filipe Silva, bem como Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto, ambos a confirmar.
Infelizmente, este colóquio realizar-se-á dias 18, 19 e 20 de Março (quarta a sexta), pelo que não poderei sequer em pensar ir xD


[Sites consultados:
* BiblioWiki
* Poe e a Criatividade Gótica / Poe and Gothic Creativity]

Wednesday, February 25, 2009

Nora Roberts

Apenas li dois livros dela, e não desgostei. Não faz o meu género, é certo, mas tem tido uma grande aceitação no público feminino.
A Saída de Emergência (uma das minhas editoras preferidas) quer espalhar por toda a Internet o catálogo das obras da autora. E porque não ajudar? Afinal, não custa nada ;)
Aqui têm:

(clicar na imagem para ver o catálogo PDF)

Sunday, February 15, 2009

2008 em Leituras [III]

E eis que chega o terceiro e último post referente às minhas leituras de 2008.
Carbono Alterado e A Oeste do Éden foram dois livros excelentes que li no ano passado. No entanto, existem mais uns quantos, tão bons quanto estes, que merecem referência.

Refiro-me, por exemplo, às Crónicas do Gelo e do Fogo, de George R. R. Martin. Li os 6 livros deste autor publicados em português pela Saída de Emergência e, digo-o sem pensar duas vezes, é a melhor fantasia medieval que li desde O Senhor dos Anéis. Enquanto que Robert Jordan, com a saga A Roda do Tempo (Bertrand), traz mais do mesmo à fantasia, Martin revoluciona completamente o género.
Em O Olho do Mundo, que também li este ano, Jordan conta-nos uma história em que, apesar de os paralelismos não serem tão claros quanto isso, tudo nos sabe a mais do mesmo. Ainda que o faça com uma escrita soberba, e consiga cativar, não traz nada de novo ao género, ao contrário de Martin. Em A Song of Ice and Fire (fica muito mais bonito em inglês :P), somos arrebatados para um completamente novo modo de contar histórias.


Martin apresenta-nos um mundo coeso, complexo mas cheio de sentido. E, fugindo ao sentido do Bem e do Mal, apresenta-nos todos os pontos de vista possíveis e imaginários. Enquanto que em quase todas as obras de fantasia temos uma jornada do Bem contra o Mal, nesta saga temos "apenas" uma miríade de personagens, humanas, cheias de defeitos e qualidades como todos nós. Personagens que lutam pelas suas causas, que nos podem parecer mas mais ou menos justas, mas todas elas correctas, do ponto de vista de cada um.
Faz-nos pensar na subjectividade da Razão, da justiça, e tudo mais. E de como tudo é facilmente manipulável, ainda mais no nosso mundo, com os mass media (hei-de escrever um post sobre isto dentro de algumas semanas).

Mas como a vida não é só fantasia, gostaria de referir também o Planisfério Pessoal, do português Gonçalo Cadilhe, um livro que me emprestou um grande amigo meu de quem, parece-me, me estou a afastar.
Mas continuando... Gostei imenso deste livro porque, através de uma volta ao mundo por terra e por mar, este viajante português dá-nos a conhecer imensas culturas, em toda a sua simplicidade e esplendor. De civilizações extremamente pobres no Oriente e na América Latina aos países ricos do ocidente, Gonçalo Cadilhe leva-nos a conhecer os problemas sociais de cada povo, mas também as suas felizes forma de vida.
Em pequenas crónicas escritas num português fluido, o autor faz-nos viajar por (quase) todo o mundo.
Aconselho. ;) Apenas tive pena que ele não tenha visitado África. :/

E pronto, acho que foi tudo. Já tenho dois livros deste ano de que vos quero falar. A seu tempo :P


Até à próxima ;)

Saturday, January 31, 2009

Leituras A Oeste do Éden

Outro dos livros que me marcou neste último ano foi o A Oeste do Éden, de Harry Harrison.
Enquanto temos livros, sem qualquer dúvida, de ficção científica (como o Carbono Alterado) ou de fantasia (como O Senhor dos Anéis), este A Oeste do Éden está a leste de qualquer género. História alternativa, segundo a Wikipédia, is a subgenre of speculative fiction (or science fiction) and historical fiction that is set in a world in which history has diverged from the actual history of the world. Alternate history literature asks the question, "What if history had developed differently?". Talvez este sub-género da ficção especulativa se adequasse a este livro, não se desse o caso de a divergência ter começado há 65 milhões de anos.

Mas continuando...
Nesta Terra alternativa os dinossauros nunca se extinguiram. O famoso meteorito nunca chegou a chocar contra a Terra, há cerca de 65 milhões de anos.
Assim, em África e em todo (?) o continente Euroasiático, os dinossauros evoluíram para as yilané, répteis bípedes com polegares oponíveis que desenvolveram uma sociedade (língua, ciência, ...) que ultrapassa em muito a nossa, em quase todos os aspectos. Assim, temos uma raça extremamente inteligente a dominar quase todo o Mundo Conhecido.
No entanto, do outro lado do Oceano Atlântico, os macacos também evoluíram e deram origem a seres humanos, tais como os que habitavam a nossa Terra há uns poucos milhares de anos. Tribos de caçadores-recolectores pululam na costa este da América do Norte.

A história gira à volta de Kerrick, o filho de um sammadar. Amahast, como chefe da sua tribo de caçadores (os chamados sammad), vê-se obrigado a juntar um grupo de veteranos e partir para sul, para não entregar a sua tribo à morte certa, naqueles cada vez mais implacáveis Invernos. Com o seu filho e mais dois caçadores, abandona a terra firme e navega até ilhas meridionais, onde espera encontrar caça com que alimentar o seu sammad.
É numa dessas ilhas que Amahast e Kerrick encontram uma nova espécie de murgu, seres de pele escamosa e de sangue frio, que se deslocam em duas patas. Movidos pelo ódio por todos os seres de sangue frio, matam aqueles machos imediatamente, enquanto estes, letárgicos, nada fazem.
Não tardarão a descobrir que matá-los foi a pior coisa que alguma vez podiam ter feito.

As yilané que estão a fugir dos Invernos cada vez mais rigorosos nas costas mediterrânicas não perdem tempo e juram vingança. Quando percebem que os execráveis ustuzou, animais de sangue quente, conspurcaram as Praias dos Nascimentos da sua nova colónia matando os machos, decidem fazer tudo para riscar a raça humana da História do Mundo.
Mas os Homens não vão desistir facilmente... Durante o livro, Kerrick, levar-nos-á ao seio da nova cidade-viva (um conceito extremamente interessante que terão oportunidade de explorar ao longo do livro, se o lerem xD) das yilané, à Europa, e ao outro lado de uma grande cordilheira gelada.

As personagens estão muito bem construídas, na minha opinião, tanto do lado dos humanos como das yilané. Achei a escrita agradável e a história extremamente cativante (com todos os conceitos inerentes às yilané - a língua, as cidades-vivas, a ciência, ...). A edição portuguesa data de 1986 mas, tendo a Gradiva reeditado o livro há coisa de dois anos, é uma boa oportunidade para se adquirir esta originalíssima obra.

;)




Podem ler o prólogo e os dois primeiros capítulos do livro, em inglês, aqui.

E obrigado ao Jorge, que nos mantém o muitíssimo útil Bibliowiki actualizado (dentro do possível :)) e sempre à mão.

Tuesday, January 13, 2009

2008 em Leituras

Em seis meses lê-se muita coisa.
E se estes seis meses foram muito pobres na minha vida cibernética, foram imensamente ricos em leituras. E leituras que merecem mesmo ser referidas.


Acho que um dos melhores livros que li este ano foi mesmo o Carbono Alterado, do britânico Richard Morgan.
Neste romance, passado na Terra a cinco séculos de distância do nosso presente, Morgan apresenta-nos um incomum protagonista - Takeshi Kovacs. Um homem do Mundo de Harlan que é contratado por um matusa para resolver o mistério que se esconde por detrás do seu próprio suicídio. O seu próprio suicidio. Estranho, não?
Não, quando na Terra do século XXV a Morte é praticamente impossível. Uma Terra onde a identidade (personalidade, memórias, ...) de cada um é guardada numa pilha cortical, situada na base da nuca, que pode ser retirada do nosso corpo e colocada noutro sem o mínimo problema. E onde a informação guardada nessa pilha pode ser descarregada a qualquer momento (se se tiver dinheiro, claro - isso não mudou, lá xD).
Então, porque se iria Laurens Bancroft, um multimilionário com já quatrocentos anos de idade, suicidar? Porque iria ele vaporizar a sua própria cabeça (e pilha cortical), sabendo que é feito um backup da sua identidade todos os dias e que seria, automaticamente, "inserido" numa nova manga (corpos sintéticos fabricados para albergar as... hm... pessoas que ficam sem corpo ou querem um mais jovem)?
É para desvendar o mistério que se esconde por detrás deste alegado suicídio - afinal, quem conseguiria contornar toda a segurança da mansão de um dos homens mais poderosos da Terra?; e quem iria arriscar a sua pele para "liquidar" um matusa imortal? - que Takeshi Kovacs é contratado.
Por entre uma overdose de mortes a sangue frio, raciocínios intrincados e sexo explicito, há tempo para nos afeiçoarmos ao protagonista, apesar de tudo, muito humano.

Os capitulos pequenos e a fluidez da escrita contribuem para um ritmo de leitura muito elevado (tendo em conta a densidade e complexidade da história). De qualquer forma, é preciso parar um pouco de vez em quando, para assimilar as informações e para não se perder o fio à meada.

E, para quem pensa que a ficção ciêntifica são apenas naves a batalhar no espaço ou ambientes de tecnologia tão avançada que torna tudo possível, uma literatura onde não há espaço para questões filosóficas ou devaneios sobre a essência do Ser Humano, leiam este livro. Um policial de ritmo alucinante, passado no futuro, mas onde há espaço para os pensamentos mais profundos e filosóficos (como o que podem ver aqui). Um livro que dá que pensar, que nos faz imaginar o que aconteceria se as pessoas deixassem de morrer.


[Estava a demorar imenso a escrever o post, por isso decidi-me a postá-lo por partes. Fica aqui o melhor das minhas leituras de 2008.]

Thursday, January 8, 2009

What Kind of Reader Do You Are?

What Kind of Reader Are You?
Your Result: Dedicated Reader

You are always trying to find the time to get back to your book. You are convinced that the world would be a much better place if only everyone read more.

Obsessive-Compulsive Bookworm

Literate Good Citizen

Book Snob

Fad Reader

Non-Reader

What Kind of Reader Are You?
Quiz Created on GoToQuiz



Well... not bad. Se bem que já tenha mudado aquela parte de mim que pensava que todos aqueles que não têm hábitos de leitura são inferiores ~~
Enfim, quando se é criança pensam-se coisas estúpidas xD


PS: Ando a preparar um post sobre as minhas leituras dignas de destaque nos últimos meses =p

PPS: Não me esqueci do teu desafio, tiago ;)

Sunday, July 27, 2008

[Esp. Tuga] «O Sétimo Selo» na Tailândia

Como já tinha referido aqui anteriormente, um colega meu propôs-me a criação de um blog generalista, o Espaço Tuga, em que eu estaria encarregue da parte cultural. Eu aceitei participar, e dentro dos 7 posts do blog, 4 foram sobre futebol, 2 sobre música (um deles da minha autoria) e 1 sobre livros (escusado será dizer que fui eu que o escrevi). Parece que para a juventude portuguesa uma coisa generalista é algo sobre futebol - como o Euro acabou, o blog está parado há um mês. Morreu, ponto.
O meu objectivo não é encher o meu perfil de blogger com blogs que morrem ao fim dos primeiros posts, ainda mais sobre futebol, por isso desassociei-me dele.
Deixo-vos aqui o único post que acho que vale a pena ficar para a posteridade:

22/07/2008

"O Sétimo Selo", o último livro da autoria de um dos mais conhecidos e aclamados jornalistas, repórteres e romancistas portugueses, José Rodrigues dos Santos, vai ser traduzido para tailandês. Segundo o Público, a tradução vai ser editada pela Nan Mee Books, ainda não havendo data de edição.
«"O sétimo selo", que vendeu em Portugal cerca de 140 mil exemplares, já garantiu edições na Alemanha, Grécia, Roménia, Brasil e mais recentemente Itália. »

Para provar que não somos bons apenas em futebol...



Acho que é uma boa deixa para dar a minha opinião sobre o livro, num dos próximos posts.

Tuesday, July 22, 2008

E a Lâmpada acende-se

Tenho deixado tanta coisa por dizer, mas não posso deixar de fazer uma breve menção a um pequeno artigo publicado no Nova Fantasia.
Parece que o guião da série Filhos da Lâmpada, do P. B. Kerr, está a ser escrito. :) Esta é uma série que, apesar de não ser soberba, me marcou a minha fase mais infanto-juvenil de leituras e é sem dúvida uma excelente notícia que possa ser adaptada para o Grande Ecrã (ainda que nem sequer tenham escolhido o realizador).

Estou a torcer para que o projecto vá para a frente =D

Monday, June 2, 2008

Prémio resulta da parceria dos BookTailors e da LER

Uma parceria da Revista LER e dos BookTailors resultou num Prémio prometedor que se subdivide em vários "pequenos prémios". De entre as 24 categorias dos Prémios de Edição há espaço para tudo: desde capas a traduções, passando por revisões e editoras revelação.
[Regulamento]


(vídeo retirado daqui)

Sunday, June 1, 2008

Yeshi or!

«Deus disse: "Faça-se luz!" E a luz foi feita.» Trocado por miúdos, nasceu o Universo - deu-se o Big Bang.
E por falar em Bang!, acaba de sair o número 4 da "Única Revista Portuguesa de [Literatura de] Aventura e Fantástico" (segundo eles, mas há mais, principalmente e-zines), editada em forma digital pela Saída de Emergência (uma das minhas editoras preferidas do momento).
Apesar de um mês e tal atrasada, chegou. E de que forma! Depois de 64 páginas nos primeiros três números (0, 1 e 2) e 88 no nº 3 (e primeiro em formato digital), neste último número somos presenteados com 104 páginas de puro fantástico :-)


Desta vez, lado a lado com excelentes escritores portugueses (Inês Botelho, entre outros) e brasileiros (Wolmyr Alcantara), aparecem os mestres Lovecraft, com o conto Ele, e Allan Poe, com Os Óculos. Miguel Garcia (que mantém o Chicago 1900) e Nuno Travesso estreiam-se por estas bandas e, com A Encomenda, Inês Botelho dá os primeiros passos na ficção curta, depois de ter escrito a trilogia O Ceptro de Aerzis e o Prelúdio.

José Manuel Lopes (autor de Fragmentos de Uma Conspiração) participa neste número com um' A Pintura Junto ao Mar e João Barreiros marca também presença na revista continuando o que começou em FANTASCOM (onde ele "satirizou" Filipe Faria [para não dizer "gozou" lol]), um conto de que não gostei especialmente mas que vou fazer um esforço para ler até ao fim, para poder dar uma opinião fundamentada.

A acompanhá-los temos Oberon, escrito pelo brasileiro Wolmyr Alcantara, do qual falarei mais à frente.


No lado da não ficção temos 3 artigos de 3 nomes incontornáveis do fantástico português: David Soares, Luís Filipe Silva e António de Macedo.

David Soares (autor d' A Conspiração dos Antepassados, entre outros - mantém O Sonho de Newton) classifica Grendel com 5 Estrelas. Este romance, em que John Gardner conta o épico de Beowulf do ponto de vista do anti-herói, chama por mim desde que saiu e este artigo só me fez ficar mais curioso. E fulo por não poder esbanjar todo o dinheiro do mundo em livros xD (De referir a mestria com que David Soares escreveu o pequeno artigo, conseguindo em pouco mais de uma página cativar, atrevo-me a dizer, qualquer leitor.)

António de Macedo (autor dos Contos do Androthélys e d' A Conspiração dos Abandonados, entre [muitos] outros), por sua vez, presenteia-nos com um artigo sobre Cidades Míticas, em que nos leva a caminhar pelos Jardins Suspensos da Babilónia, a sonhar com Zion (do Matrix) e a deambular pela maravilhosa Kadath, directamente saída do imaginário de Lovecraft. Há ainda espaço para a referência a Pasárgada, a Amaurotum (a capital da Nova Insula Utopia) e a Shangri-La (entre outras cidades míticas), assim como para uma abordagem sobre a misteriosa espiral logarítmica, a sua relação com a proporção divina e as suas manifestações na natureza.
Tudo isto numa escrita absolutamente deliciosa, coerente e fluída.

Por fim, podemos ler um artigo sobre a antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados, da pena de Luís Filipe Silva (autor da GalxMente, de milhentas ficções curtas e do blog Efeitos Secundários).
Os textos sobre a quase nula produção de ficção ciêntifica e a difícil subsistência do género em Portugal, escritos num tom quase "penoso", apesar de os autores não serem em grande número, abundam. O início deste Antologias, Fantasias & Odisseias faz-nos adivinhar um artigo no mesmo registo mas o Luís rapidamente muda de assunto. Começa a falar, então, sobre uma antologia. Mas esta não é uma antologia qualquer - é a Antologia da Nova Literatura Fantástica em Língua Portuguesa, uma antologia que coloca lado a lado autores que escrevem desde ficção ciêntifica e surrealismo a realismo mágico e história alternativa, portugueses e brasileiros (e colocaria autores das comunidades lusófonas africanas e asiáticas se houvesse material de qualidade, certamente), sem fazer quaisquer distinções. Logo a seguir, o Luís Filipe Silva, que organizou a antologia com o Jorge Candeias, transporta-nos repentinamente para uma "realidade alternativa", falando-nos das "dores de parto" que teria sofrido se tudo isto tivesse acontecido há uma década.
Felizmente não aconteceu como o LFS relata - não houve necessidade de infindáveis horas ao telefone nem de dezenas de cartas trocadas para fazer o livro, tendo tudo sido tratado através da internet. No entanto, e apesar de todas as inovações trazidas pelo aparecimento da net, as mentalidades mantiveram-se (quase) inalteradas, ou seja, a receptividade das(os) editoras(es) em relação a projectos inovadores como este continua (quase) nula. E o que é que isto significa? Publicação de autor. É verdade, o LFS, para não deixar a meio este projecto, teve de recorrer a uma print-on-demand, que significou de antemão uma fraca visibilidade no mercado. O lançamento da obra foi bem conseguido, integrado na edição de 2007 do mais importante evento do fantástico em Portugal, o ForumFantástico, apesar de, de entre todas as possibilidades, ter ficado com o pior dia e hora (19h30 da 5ªfeira de abertura). Quanto a livrarias onde comprar já nem se fala - parece que o LFS conseguiu que o livro fosse colocado à venda numa livraria lisboeta mas, para além disso, nada - só encomendando pela lulu.com.
Mas nem tudo é mau - este conjunto de 14 contos vai estar à venda na banca da Saída de Emergência na Feira do Livro de Lisboa até dia 15 de Junho. Ou seja, são 11 contos (e noveletas) excelentes por menos de 17€ (é provável que o preço ronde os 13,5€, caso tenha os habituais 20% de desconto) - 11, pois 3 dos 14 não são nada de especial (e um deles é péssimo, na minha opinião).
E agora voltando à revista (já vos devo ter dado seca suficiente lol), é a altura ideal para falar de Oberon, o conto de Wolmyr Alcantara presente na Bang! em representação da antologia. Não creio que seja dos melhores - na verdade, de entre os 11 contos bons, não o colocaria nos primeiros 6 - mas é agradável de ler, mesmo para aqueles a que o brasileiro escrito pode fazer um pouco de confusão (como eu), e a história é boa. (E é uma escolha que sempre dá um ar mais internacional à Bang!.) Se não ficaram suficientemente convencidos com este meu paleio todo dêem-me o beneficio da dúvida e dêem uma olhadela ao conto. É fácil, é grátis e... é bom. Depois considerem que há vários contos melhores (na minha opinião) e pensem em comprar o livro =P Iniciativas destas precisam de vingar no panorama português, para ver se se começa a criar uma estrutura forte e estável no mercado editorial para os livros do género.

Podem fazer download e ler a revista aqui.


E fico-me por aqui, com a promessa de vos chatear mais um bocado quando ler todos os contos publicados na revista. lol

Monday, May 26, 2008

A Feira do Livro de Lisboa e a LeYa (Luís Graça)

Mais vale nem começar a falar sobre o que acho da absurda situação deste ano, mas não podia deixar de citar aqui o comentário de Luís Graça no Blogtailors. Simplesmente fantástico.

«Mudar só por mudar não leva a muito.
Vale mais deixar o que está bem do que mudar para inovar e conseguir "inventar" novos problemas.

No primeiro dia da Feira do Livro houve cinco ou seis pessoas que tropeçaram nos stands da Leya.
Entre os quais eu.

Como existe um espaço entre a rampa e o estrado, não é nada difícil bater com o pé no estrado e sair de cabeça direito aos livros. Não é a minha forma favorita de mergulhar na literatura.

Com o pagamento centralizado, obriga-se o comprador a fazer um sobe-e-desce. Esclareceram-me que podemos andar com os livros na mão de um stand para o outro e só no final nos temos de dirigir à caixa de pagamento (são seis).

Ora, como esta se situa num topo, fácil será de concluir que será obrigatório um sobe-e-desce, dê lá por onde der. Se a pessoa começar a comprar nos stands de baixo, terá sempre de subir para pagar. Se quiser continuar a descer a feira já efectuou três percursos (duas descidas e uma subida).


Como a zona de pagamento tem pouco espaço, será fácil concluir que as pessoas terão de ficar à chuva ou ao sol enquanto não conseguem pagar. Mesmo com seis caixas. Será muito fácil quando houver pouca gente. Mais complicado aos fins-de-semana. Ou seja, as seis caixas não evitarão as "molhadas".

Quanto às meninas, são giras e simpáticas. E gostam de pipocas e de banda desenhada. Só debati o tema do "Manga" entre a juventude. Não falei de pipocas.

E como é que se carregam os livros de um lado para o outro?

Mais: o comprador-que-ainda-não-comprou-o-livro estará sempre "debaixo de olho". Quem ajuiza da boa fé das pessoas?
Se uma pessoa encontrar um amigo e se distrair, pode muito bem sair da zona da Leya e passar por ladrão.

Também não vejo grande vantagem nos equipamentos todos iguais, com pólo vermelho com o símbolo da Leya. O que interessa ao comprador é identificar a editora. Se em todo o lado têm o pólo da Leya, falta informação ao comprador.

Para mais quando o pólo vermelho não é capaz de nos dar uma informação tão simples quanto esta:
"Este livro vai ficar em livro do dia?".

Aconteceu-me logo no primeiro dia. Independentemente da simpatia e da educação das "camisetas rojas", não me conseguiram dar uma informação tão simples quanto esta. Nem sabiam quem a podia dar.

Também ainda não estava disponível uma calendarização das sessões de autógrafos.

(E o site da Feira do Livro não está actualizado. Por exemplo, é anunciada --- na sua editora, na zona dos autógrafos, através de cartaz --- uma sessão de Vasco da Graça Moura para as 18 horas de domingo, 25. No site da Feira do Livro ainda não constava essa informação)

Resumindo e concluindo: a mudança dos stands não evita uma série de problemas.
Esteticamente, não me choca nada. Mas também não adianta nada.

E o espaço disponível em cada stand é muito reduzido. Quando houver muitos visitantes, uns terão de esperar para subir, outros de esperar para descer a rampa. O que não acontece num restaurante da minha zona chamado "A rampa". E muitas mãos haverá por cima dos ombros, para chegar aos livros. Espaço para abrir um álbum de BD é coisa que não existe em abundância.
Prevejo, mais do que chuva, muito choque de costas com costas.
Mas pode ser que as colisões involuntárias ainda dêem em algum casamento feliz.

"Lembras-te, querido? Conhecemo-nos na Feira do Livro de Lisboa. Tu estavas a ler um álbum do Astérix e deste-me um encontrão. Eu tinha acabado de tropeçar à entrada do stand e tinha estragado uma sandálias de marca, acabadinhas de comprar no Corte Inglés. Quem diria que havíamos de ser tão felizes?".

Mas pode ser que eu tenha mau feitio e seja um bota-de-elástico avesso à mudança.
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Resumindo: a LeYa faz uma fita do caraças (só por se achar melhor que os outros - que não é, nem mesmo em termos económicos, pelo menos no que toca à Bertelsmann), põe em risco a realização da Feira do Livro de Lisboa, atrasa a data de início da Feira, e no final de contas apresenta-se com estes caixotes da treta. Não valia mais ter ficado quieta?


PS: Não vou apelar a boicote nenhum, pois acho que cada um faz aquilo que a sua consciência dita, mas a LeYa que não espere que eu meta os pés na "pracinha chique" deles (isto é, se eu conseguir sequer pôr os pés na feira lol). Sou contra senhores [leya-se Paes do Amaral e afins] que gostam de fazer birrinhas por tudo e por nada, isto é, por um "negócio" que, por acaso, tratam como se do negócio do calçado se tratasse.
Enfim... Acho que já falei mais do que devia xD



Já agora, alguns posts para ler:
- O Mercado Editorial Português, no BlogTailors
- Caixotim e a Feira do Livro, também no BlogTailors

Friday, May 16, 2008

Oportunismos


É verdade, esta nova secção nas estantes está a crescer. E de que maneira.


Daqui a nada compramos a Sábado para lermos literatura a sério e vamos às livrarias para comprar textos de jornalistas.

Engraçado...

Wednesday, April 9, 2008

O Estado da Literatura em Portugal (II)

Um pouco na continuação de O Estado da Literatura em Portugal, gostaria de citar um post publicado às 12h07 no Blogtailors - O Blogue da Edição, chamado "Nova Secção nas Estantes".

Não podia concordar mais.